Eu não era exatamente o tipo perfeito de mulher.

Tinha vinte e oito anos naquela época, solteira, sem filhos, odiava cigarro e bebia de vez em quando, nada muito exagerado. Tinha um bom emprego, era professora em uma escola particular no centro da cidade e ainda dava aula particular para alguns alunos. Eu não era uma pessoa de muitos amigos, mas, os poucos que eu tinha eram especiais, sempre dávamos um jeito de fazer nossos programas juntas. Desde manicure, compras ao karaokê no barzinho. Resumindo, tudo estava em ordem na minha vida, profissionalmente, socialmente, emocionalmente nem tanto, a carência começava a me incomodar, afinal, não era mais nenhuma menininha, estava chegando à casa dos trinta anos.

Decidi radicalizar o visual. Troquei aqueles longos cabelos pretos, por um long bob de mechas loiras, arqueei a sobrancelha e comprei alguns vestidos novos. Fiz bronzeamento artificial, nada exagerado, só para deixar uma marquinha mesmo, fazia muito tempo que eu não sabia o que era tomar sol. Esse upgrade era tudo o que eu precisava para me sentir bem, andava meio borocochô. Fiquei apaixonada por mim.

E minha vida seguiu a mesma, dava aula durante o dia, a noite frequentava academia, na quarta-feira sempre tinha nosso karaokê regado a vinho e muitas risadas e aos sábados dava minhas aulas particulares. Mas, algo estava diferente. Agora eu recebia elogios, cantadas, os olhares voltaram-se para mim. Minhas amigas diziam que eu estava iluminada.

Eis que em uma fatídica quarta-feira, no nosso tradicional karaokê, enquanto estávamos à mesa, conversando, rindo, comecei a ouvir uma voz fantástica cantando naquele microfone. Quando olhei, pensei: “Minha mãe do céu!”. Ele me tirou o ar. No primeiro momento não consegui ver os olhos dele. Cantava com os olhos fechados, como quem canta com o coração. A música, a minha favorita: Por enquanto, da Cássia Eller. “Mudaram as estações, nada mudou. Mas, eu sei que alguma coisa aconteceu, e aí então, estamos bem. Mesmo com tantos motivos, para deixar tudo como está.”

Parando para pensar hoje, sei que ele não era o mais bonito. Meio gordinho, cabelo um pouco bagunçado, mas, a barba era bem desenhada, como de quem vai ao barbeiro semanalmente. Um cordão de prata no pescoço, um crucifixo. Passava-me uma sensação de que era vaidoso, mas, nem tanto. Ele tinha uma luz diferente. Foi estranho. Naquela hora era como se o mundo ao redor tivesse parado. Eu não ouvia mais a conversa das minhas amigas, ou o barulho dos carros na rua do bar. Minha visão e minha audição estavam completamente hipnotizadas. E assim foi, por alguns minutos, enquanto ele se apresentava.

Logo em seguida caminhou para sua mesa enquanto era aplaudido, sentou-se com seus dois amigos. Óbvio que minhas amigas perceberam o meu encantamento. Fiquei abobada. Eu sentia que precisava conhecer aquele cara. Para que ele me visse, resolvi ir cantar. Mas, é claro, só fui porque sabia cantar. Antes de ser professora eu fui cantora, fazia backing vocal para um cantor sertanejo. Mas, eu queria chamar atenção, então resolvi cantar uma música em inglês, difícil, mas, muito bonita. Who you are, da Jessie J. A letra é mais ou menos assim: “ Don’t lose who you are, in the blur of the stars (Não perca quem você é, no borrão das estrelas)/ Tears don’t mean you’re loosing (lágrimas não são uma derrota) / everybody’s bruising (todos estão sofrendo), just be truth to who you are (seja verdadeiro com quem você é)…” Fazia tempo que não me sentia tão bem, cantar sempre me fez bem.

Ao fim da música, também todos me aplaudiram, mas, ele fez questão de me aplaudir de pé. Eu sabia, meu primeiro objetivo havia sido alcançado com sucesso. Após sentar-me à mesa, ele veio em minha direção, perguntou se poderia se sentar e começamos a conversar. Marcos e Helena ali se conheceram. E foram embora várias horas como se poucos minutos fossem. Lembra que eu não tinha visto os olhos dele? Agora eu não conseguia mais disfarçar, eu não sou emocionalmente forte o suficiente para lidar com olhos cor de mel.

Ele era homem simples, batalhador. Vendia instrumentos musicais, sempre foi apaixonado pela música, mas, nunca tinha pensado em virar cantor profissional, preferia ficar na dele. Fiquei encantada, para não dizer apaixonada, mas, apesar de não querer, precisava ir embora, ainda estávamos no meio da semana. A essa altura, minhas amigas já tinham ido embora e eu nem havia percebido, pagamos a conta e ele me acompanhou até o carro. Enfim, nos beijamos. Minha vontade foi de gritar um grande e sonoro. “Puta que pariu”. Que beijo. Era a cereja do bolo daquela noite. Trocamos os números de celular e em seguida fui embora.

O tempo passou, foram vários encontros, alguns anos, que viraram namoro e em seguida, virou noivado. Dois anos já tinham se passado e eu ainda estava em êxtase, ele também. Era amor. Éramos o amor de nossas vidas. Eis que em um fatídico dia, ele me abandonou. Não que o quisesse fazer, mas fez. Em uma de suas viagens ao interior para vender equipamentos, um caminhoneiro infeliz dormiu ao volante, acertou em cheio o carro de Marcos. Ele não matou apenas uma pessoa, foram duas. Minha vida também se foi. Marcos era minha vida. Agora, fica uma dor e uma saudade imensurável.

Ele não me disse adeus.

 

2 COMMENTS

  1. O que se pode dizer ao ler algo assim?
    Eu estou em choque…Sem palavras.
    Uma das pessoas que eu mais quiz nesta vida, faleceu de cancer este mes e eu nao sofri tanto quando deveria, pois sabia que ele sofria muito com a doença.
    Terrivel!

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here