Crônicas

A mudança

Em um segundo tudo muda. Um dia você é apenas um bebê engatinhando, sem preocupações ou nada a temer. No outro, uma criança brincando livre pelo vasto mundo a ser explorado. Depois, um adolescente eclodindo hormônios. Você passa a ser um adulto ocupado. Até que chega a sabedoria que a velhice nos entrega.

Não podemos evitar. A mudança está em nós. E é essa habilidade de se reconstruir que nos mantém vivos. Charles abriu a porta de seu quarto e olhou nos olhos do pai e da mãe. Viu o ódio no olhar do pai e a dor no da mãe. Convicto do que iria fazer, desceu as escadas e partiu para o desconhecido. Para a mudança.

“Você morreu para mim”, dissera seu pai. “Eu não compreendo”, choramingou sua mãe. “Não sou uma aberração!”, Charles se defendeu.

A noite caiu. Charles não tinha onde ir. Seus amigos, ou apenas conhecidos, não podiam o acolher. Muitos deles haviam virado as contas quando descobriram sobre sua orientação. Charles sentiu a dor da mudança, mas se sentiu leve por ela ter chegado.

Na primeira noite, dormiu na rua. Na segunda, encontrou uma marquise. Na terceira e com muito frio tentou encontrar um abrigo, mas lhe disseram que já estava superlotado.

Charles se jogou no chão, fitou o céu e observou as poucas estrelas que brilhavam no céu. Elas também mudam, assim como tudo.

Esperança foi o que o salvou. Mais exatamente uma mulher com esse sobrenome. Ele havia caído no sono em frente a um prédio residencial e acordou com uma bondosa mão lhe acalentando.

Maria Esperança perguntou-lhe o que havia acontecido. Ele contou sua história e ela o deu um motivo para sorrir. Na quarta noite ele não dormiu na rua. Na quinta noite ele possuía um trabalho.

E o tempo passou. E tudo mudou.

Charles e Maria Esperança se tornaram grandes amigos e juntos abriram uma ONG para proteger pessoas como Charles. Um dia, Charles se preparava para encontrar com seu marido quando sua secretária lhe dissera que alguém esperava por ele.

Esse alguém tinha o rosto marcado pelo tempo. Embora possuísse a mesma beleza, garra e olhos tão intensos como os de Charles. Lágrimas escorreram. E a mudança trouxe o perdão. A mudança traz tudo. A mudança é tudo.

Ygor Phelipe

Um sonhador, um homem de mil faces, de milhares de heterônimos e com uma missão: dar vida aos sonhos por intermédio das palavras. Poeta, romancista e apaixonado por livros, histórias e pelas viagens que elas proporcionam.