Na infância, os primeiros dias de uma criança são marcados por um profundo aprendizado. É o iniciar da vida e a descoberta do mundo. Durante esse período, a criança se forma por meio dos ensinamentos dos pais, familiares e professores, ou seja, pessoas com as quais convive constantemente. Pessoas estas cujo papel principal é ensinar os caminhos para que a nova criaturinha siga. Embora sejam tantos indicadores do caminho, há algo comum entre eles: o NÃO.

Essa, se fizessem uma pesquisa de campo, com certeza, seria a palavra mais ouvida na infância: “menino, não pode”, “filha, não mexa nisso”, “mocinho, não levante”, “não se sente”, “não coma”, “não toque”, não, não, não… O pequeno ser em formação chora, faz birra, esperneia e, depois de se acalmar, volta a fazer o mesmo. Como se dissesse: “não entendo o significado dessas letras pronunciadas”. (rsrs)

Não basta a primeira fase ser marcada pela palavrinha tão desanimadora, chega-se à adolescência e, mais uma vez, ouve-se tantos NÃOS. Porém, os nãos são ditos por outras razões, afinal, a pós-criancinha já entende melhor o que está sendo dito. Eis aqui: NÃO. “Não vá à festa”, “não chegará tarde”, “não matará aula”, “não faça o que não quero”, “não saia com aquelas pessoas”, não, não, não… Bem mais crescidinhos, os adolescentes já escutam essa palavra e demonstram que a compreendem, porque a rejeitam intensamente. Retrucam, reclamam, desobedecem… Querem, incansavelmente, decidir e exigir o sim. Por vezes, essa tentativa se resume a nada – esforço perdido. A autoridade repete sem dó, nem piedade: não! E restam só caras viradas e revoltinhas passageiras.

Surge, então, o momento em que não há mais crianças, tão pouco adolescentes para ouvir os “nãos”. Não há pais, familiares, professores para os dizerem e para mostrar o caminho. É chegada a fase em que os NÃOS são ditos de outra forma, por uma outra “voz”. Essa voz que ecoa repetidamente faz questão de se identificar, não gosta do anonimato: sou a voz da Vida. As três letrinhas as quais formam a palavra NÃO, nesse momento, têm um peso bem maior, uma vez que exigem mais dos ouvintes. O não, agora, manifesta-se implicitamente no resultado do vestibular “reprovado”, na porta fechada para o emprego almejado, no “não dá mais” dito pela pessoa amada, no vencimento da fatura do cartão quando se está sem grana, na perda de um familiar para a morte, na labuta diária por sobrevivência. Sem dúvida, chegou-se à fase adulta, cuja apresentação não tem disfarces, nem remédios para evitá-la. A criança cresceu, o adolescente amadureceu e o adulto toma agora posse de suas escolhas, ouve o grito da vida dizendo a ele como o jogo funciona: aqui, não vence quem bate mais, mas sim quem aguenta apanhar por mais tempo.

São inúteis os choros, as birras, as revoltas, porque o crescimento implica aceitação dos nãos e está diretamente relacionado à capacidade de ouvi-los, vivê-los e levantar a cabeça em direção ao sim que espera os fortes, isto é, aqueles que, apesar dos diversos nãos, têm coragem de levantar da queda, lavar o ‘joelho esfolado’ e lutar pelo sim. E o sim chega. Ah, sim, chega… No hoje que se inicia.

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Rebeca Mendes
Quanto a mim, que leio, se crio e mantenho em existência um mundo injusto, não posso fazê-lo sem que me torne responsável por ele. E toda a arte do autor consiste em me obrigar a criar aquilo que ele desvenda - portanto, em me comprometer. Eis que nós dois arcamos com a responsabilidade pelo universo.( Jean Paul Sartre)