Crônicas

Amar sem palavras

Todo o dia era tudo igual. Acordar cedo, tomar banho, preparar o café da manhã, comer e sair para o trabalho. Produzir algumas coisas, matar um tempo no cafezinho, e de volta para casa. Estava cansado.

 

Estava cansado dessa rotina, casa-trabalho-casa. Nenhuma emoção, senão alguns olhares trocados com aquela moça da copiadora. No meio de tantos papéis, paredes brancas e chão cinza, janelas fechadas e cortinas escuras, o sorriso discreto dela alegrou meu dia. Eu era tímido, mas ela, eu nunca havia ouvido sequer sua voz, sequer a havia notado.

 

Depois disso, qualquer papelzinho era motivo para ir até a mesa daquela linda moça das cópias. Saía de sala em sala perguntando se alguém estava precisando de alguma cópia, só para ter alguns minutos olhando-a, mesmo que nem me notasse. Aquilo me trouxe de volta a alegria de viver, de vir trabalhar.

 

Depois de algumas semanas fazendo isso, a vontade de conversar com ela estava martelando minha cabeça. Queria muito conhecê-la melhor, quem sabe ter chance de vê-la fora daqui.

 

No dia seguinte, cheguei mais cedo, deixei um bilhete carinhoso na mesa dela dizendo: “Seu sorriso é minha cafeína matinal, indispensável, viciante e tomo minhas doses diariamente. Com carinho, admirador secreto.” Depois disso, fui até a sala dela umas três vezes neste dia, no intuito de ver a sua reação, ou então na tentativa de demonstrar quem era o admirador secreto. Mas era estranho, dia após dia, entrando naquela sala, não ouvia sequer um sussurro, ela era muito calada. Cheguei à conclusão de que não tinha gostado, ou então que tinha namorado.

 

Mas o dia transcorreu normalmente até a hora do almoço. Quando retornei, havia um bilhete em minha mesa. Meu coração disparou, a boca secou!

 

“Seu olhar me deixa boba, seu jeito sempre educado me encanta. Apesar de todo o trabalho que traz para mim (risos), fico feliz quando vem aqui. Adicione-me no whatsapp para conversarmos melhor, meu número é 1234-5678. Com carinho, sua admiradora declarada.”

 

 

Sem pensar duas vezes adicionei o número dela e conversamos das duas horas da tarde até as duas da manhã. A afinidade, mesmo que virtual era tanta, que os assuntos surgiam a todo o momento. Já conhecíamos os gostos um do outro, já havíamos visto fotos das famílias, trocamos confidências e até mesmos algumas selfies noturnas. Ela era tão linda, mesmo com cara de sono, as duas da manhã.

 

E foi assim durante toda semana, conversando por mensagens, trocando bilhetinhos carinhosos e mantendo a discrição no trabalho até que na sexta-feira, e combinamos de sair. Passou-me o endereço e disse que estaria pronta às 21:00. Ela aparentemente sem graça, meio sem jeito de dizer, mas disse que havia um detalhe sobre ela que não havia me dito e que eu ainda não tinha percebido.

 

“Eu sou surda”- disse-me por mensagem. E eu respondi apenas: “Hum…”.

 

Isso não mudava absolutamente nada do que eu estava sentindo por ela, então resolvi fazer uma surpresa. Corri até a papelaria, comprei algumas cartolinas, um pincel e escrevi em todos. Comprei um buquê de rosas e fui aprontar.

 

Quando chegou o horário marcado, enviei mensagem informando que havia chegado. Ela então me respondeu que não estava pronta, pois pela resposta que tinha dado mais cedo, achou que eu não iria querê-la mais e que havia perdido o interesse completamente. Respondi: “Não precisa aprontar, venha aqui rapidinho, não irei demorar.”.

 

Ao sair pelo portão, além das rosas, comecei a exibir as cartolinas que havia escrito. A sequência era: Boa noite linda / Eu vim apenas para lhe dizer / Que ser surda-muda não quer dizer nada / Nossos corações não precisam falar para se comunicar / Gestos demonstram mais do que qualquer palavra / E sabe esse papel aqui? / Me matriculei no curso de Libras.

 

Ela não se conteve, chorando, suas pernas fraquejaram e caiu de joelhos. Mas era choro de felicidade, aquele misturado com sorrisos.

 

Assim que ela se acalmou um pouco, peguei as duas últimas cartolinas que diziam: Quer namorar comigo? / Está esperando o que para vir me beijar?

 

Ela então correu e pulou em meus braços, e descobri que a felicidade tem sim gosto, o beijo mais gostoso que podia imaginar.

 

Não existem barreiras suficientes para impedir o amor de florescer. Não escolhemos o amor, é ele que nos escolhe. Devemos lutar contra as adversidades e entender que ninguém é um ser humano perfeito, mas existe sim alguém perfeito para nós.

 

Marcelo Taveira

 

Marcelo Taveira

O melhor de você, apenas você pode extrair.

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