Cartas

Apenas mais uma carta de amor

 

Amor, que bom que você veio depressa, e logo nesta festa de encontros se tornou permanência. Isso me assustou. Ainda me assusta. É que a sua chegada ( e  também o ato de ficar), como tudo em você é tão imprevisível, tão novidável, tão recheado de paixão, misturado com as coisas fofas que me amarram em você e somadas aquela pitada de sacanagem sem a qual não podemos desfrutar o amor de dois seres viciados por todo o prazer que a vida de presente pode proporcionar.

Sim, eu te amo descaradamente, sem necessidade de esconder, ou camuflar ou “megafonear”. Novo termo. Neologismo, eu sei. E o que seria da boemia, da poesia, do blues e do jazz sem as licenças poéticas? Eu te amo, pelas suas vindas, em que tarde da noite chegas querendo não desperdiçar uma mísera gota do meu mel, do meu céu da boca, sem perder a chance de passear por minhas costas. Ah! Eu também te amo quando de mim fazes o seu travesseiro, o seu violão e sua guitarra para tocar o seu rock in roll favorito.  Eu também te amo, por cada orgasmo, por me permitir ser safada com você, não que eu não o possa sem o seu consentimento, mas doar prazer me faz feliz tanto quanto receber. Eu te amo por arrancar de mim todo o tesão que tenho pelo cara inteligente e gostoso que você é. Te amo centenas de vezes fora da cama, e por isso posso te amar milhares de vezes no espaço de um relacionamento que mescla os sonhos divididos com os líquidos corporais.

Te amo, amor, pelo arrepio, pelo frio na barriga, pelos papos cabeças e pelos chás feitos de madrugada enquanto falamos dos nossos sonhos ou escrevo mais um livro. Te amo, quando és canção, música nova para eu me apaixonar, quando é grito, suspiro no café da manhã, dengo no almoço surpresa em meio de semana. Te amo, quando te olho com o olhar compenetrado, enquanto assistimos a um filme depois do jantar. Te amo, enquanto você no meio de uma transa, como se quisesses que o meu coração te pertencesse inteiro, apertas a minha mão e me beija a testa. Te amo, por você entender e ter todo orgulho do mundo em demonstrar que sou a sua mulher. Te amo, pelas brigas infundadas e pelos chocolates tragos como selamento de uma paz: ” Foda-se isso tudo, vamo ficar bem, porra?”. Choro de rir, porque todo pleonasmo teve início em quando você disse que “odiava amar a louca mais certinha do mundo”.

Eu te amo, quando sabes me mostrar com toda a sabedoria da paciência que eu poderia melhorar alguns aspectos do meu caráter e que o mundo não podes me dizer “sim” o tempo todo. O meu ego equilibrado agradece. Eu te amo, quando você está doente e quando cuida de mim. Quando o beijo no pescoço e o abraço por trás, traz a surpresa e alívio em linha tênue,e ali na pia da cozinha, todo o nosso teatro, significa estamos dentro da Liga da Justiça e dos Vingadores.

Eu te amo, pela proteção e pelo barraco. Eu te amo, pela bebedeira mágica em família e pelo porre da saudade com os amigos. Eu te amo, por sempre esquecer de ir embora quando é domingo. Eu te amo por sempre ser minha escapadela na segunda. E já notou que toda segunda sem você é quase de quinta?

Eu te amo, quando as flores chegam. Eu te amo, ainda mais, quando a sua letra faz clarear as minhas retinas. Sua palavra doce e o poema singelo que faz os meus olhos sorrirem é sempre a sua caligrafia, nesses bilhetinhos que acompanham meus sorrisos suspirados:

“Faço a janta. Te espero. Fedendo do trabalho. Com cebolinha no cabelo. Mas apaixonado.”

Eu te amo, pela incerteza de romances hollywoodianos, mas pela certeza de um romance real. Eu te amo, por entender dentro de mim que no seu pouco falar expressas mais amor que eu.

Eu te amo na incerteza da sua chegada, mas pela permanência que existe de você aqui. E quando vier amor, eu sei, saberemos: Enfim, chegou!

 

Natália Rezende

Um ser amor. Acredita em contos de fadas e em todos os mundos mágicos do universo das palavras. Das mais certas, mas também possuí incertezas. Um pouco louca. Escreve e sonha.

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