Cartas

As samambaias que nunca tivemos

Ontem eu passei em frente a uma floricultura e vi as samambaias que nunca tivemos. Aquelas que íamos colocar naquele jardim perfeito que nunca iremos ter. E eu fiquei parado ali mesmo na calçada. Fiquei relembrando os planos que fazíamos para nosso futuro – nossa casa, nossos filhos, nossos cachorros, nossas flores, nossas coisas, nossas vidas… Fiquei pensando nos sonhos que sonhamos juntos e no tempo que passamos deitados no chão, olhando para o céu, visualizando nossos projetos em forma de nuvens.

 

Eu tenho certeza absoluta que se dependesse apenas da nossa vontade, tudo que havíamos planejado para nós, iria se concretizar. Mas há muito mais por trás de uma relação do que se possa imaginar. Cada pessoa carrega dentro de si um universo, desconhecido para ela mesma, que muitas vezes é influenciado por vários fatores que estão além da sua capacidade de compreensão. Esse universo, infinito de sentimentos, certezas e incertezas, que cada um carrega, muitas vezes se colide nas relações. Os conflitos de personalidade, fé, razão, visão sobre mundo e sobre si mesmo, muitas vezes são devastadores.

 

Essas colisões nos machucam, nos quebram, nos causam danos muitas vezes irreparáveis. Não existe nenhuma maneira mágica de fugir da dor. Isto não é uma informação nova, mas não custa lembrar: sempre haverá algo ou alguém que vai partir seu coração, isso faz parte da vida, é inevitável. O que você precisa saber é se realmente vale a pena seguir adiante, sua decisão sobre isso é o que definirá o rumo da sua relação.

 

Nós decidimos seguir sozinhos, cada um com seu universo despedaçado. Soltamos as mãos, nos distanciamos e em um determinado cruzamento da vida, tomamos sentidos totalmente opostos. Nossa situação mal resolvida foi resolvida em um ato. Sem ressentimentos. Sem rancor. Sem dramas. Sem culpados. Eu fiquei parado por um momento, observando você partir sem olhar para trás, da mesma forma que fiquei parado ontem, contemplando nossas samambaias, com aquele conhecido nó na garganta, com aquela sensação de que poderíamos ter sido muito felizes, mas infelizmente não conseguimos.

Mateus Adriano

“Acredito nas palavras, como alguém que acredita em milagres. Elas me salvaram por mais de uma vez, e eu, com coração grato, irei anuncia-las com todo meu amor.”

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