II

Sentado sob a sombra de uma grande árvore, caderno e lápis
ao chão, comendo uma fruta enquanto os pensamentos fervilhavam
em busca de alguma ideia ou um simples fio de inspiração ao qual
pudesse se agarrar.

Sua personagem já tinha um nome, uma aparência e um jeito
de ser. O que faltava? Há horas tentava pensar num rumo para
Cassandra, ficava imaginando como ela se sentia em simplesmente
existir e ponto.

Existência. Era isso que faltava. É impossível existir no nada.
A personagem precisava de um mundo, um lugar onde pudesse
viver e ter uma história.

Mas o que exatamente é um mundo? Conjunto de tudo o que
existe, segundo o dicionário. Então Cassandra era seu próprio
mundo, já que era tudo o que existia naquela folha branca.
Era então sua tarefa adicionar mais existência ali.

“Havia uma bela casa nas planícies, próxima a um pequeno
rio. Um horizonte limpo, ao qual Cassandra às vezes se sentava e
ficava admirando o sol se por enquanto, com olhar distante, tentava
sempre adivinhar o que havia lá ao longe. Conhecia só uma
pequena parte do lugar, não se aventurara a explorar. Não ainda.”
O autor riu. O Mundo agora era mais completo, mas faltava
muita coisa. Contemplou o caderno tentando ouvir o que ele pedia
que fosse escrito.

“Uma grama verde e macia cobria grande parte dos arredores
da casa, o que incluía uma árvore grande próxima à mesma.
Algumas flores de variados tipos brotavam em lugares aleatórios e
traziam um perfume agradável com o vento. Sol e lua revezavam o
céu e quando se sentiam sozinhos, compartilhavam-no.”

Pronto, agora parecia habitável. Era ali que a personagem
teria uma vida. Naquele lugar aconteceria tudo da história. Com o
lápis na boca leu o curto trecho que escrevera e achou graça ao
notar que era um autor preguiçoso.

Deu especial atenção à ultima frase. Até mesmo os grandes
se sentem só. Riu-se ao notar que havia um pouco de si naquele
texto. De solidão ele entendia.

Muito ainda seria necessário pra ele estar satisfeito, mas não
sabia como continuar. Repousou o caderno na grama, fechado com
o lápis no meio. E se pôs a olhar o horizonte, sem nada em especial
na mente. Apenas admirando uma grande, imponente, poderosa e
solitária bola de fogo sumir entre as montanhas.