III

Folhas e mais folhas amassadas, emboladas e rasgadas,
todas espalhadas pelo chão do quarto. Fragmentos de historias que
ele não queria. Em todas faltavam algo que buscava sem ainda
saber o quê exatamente.

Levantou e se aproximou da janela aberta pra admirar a rua.
Observou as pessoas caminhando de um lado pro outro, vivendo
suas vidas. Por quê? Qual o motivo de todos os dias.

As pessoas fazerem tantas coisas? Questionava-se, pois com
a resposta conseguiria seguir com seu texto.

Destino. É ele quem determina o que cada um faz todos os
dias de sua vida. Essa foi a resposta que conseguiu depois de
horas divagando. Após finalmente chegar a alguma conclusão,
sentou com o caderno sobre as pernas, encostou o lápis no papel e
voltou a pensar.

Concluiu que o destino é apenas uma folha em branco e um
lápis ou até mesmo o texto escrito com eles. Descobriu a grande
responsabilidade que um autor tem em mãos.

“Sentada sobre uma pedra à beira d’água, sentia uma brisa
fresca lhe tocar levemente e balançar seus cabelos. Uma sombra
cobria o lugar e tornava-o propício a se deixar levar por
pensamentos.

Admirava-se no espelho que o riacho formava. Olhando em
seus olhos questionava o porquê de estar ali, de ter acordado, de
existir. As mesmas perguntas valiam pra tudo ao seu redor, queria o
porquê do vento, do rio, da terra. Queria o porquê da vida.

Sem motivo, ia diariamente até ali e repetia monotonamente
aquelas mesmas questões. Ninguém nunca vinha responder e logo
adicionou à sua lista perguntas sobre solidão.”
Leu e releu o pequeno trecho várias vezes. Assim como ele,
Cassandra tinha muitas perguntas sem respostas, mas ela estava
ainda mais incompleta. Estaria ela meramente existindo?
Questionar o mundo ao seu redor é o mesmo que se questionar?
Que não saber quem é?
Era hora de escrever um destino pra sua personagem, sentiase como ela, vazio e sem vida. Não podia permitir que Cassandra
ficasse estagnada à espera de uma aventura ou qualquer coisa que
a libertasse daquele estado.
“Certa manhã, o sol nasceu como era de se esperar, mas nem
tudo estava normal. Um cheiro estranho vinha com o vento, além de
um som ao longe.

Cassandra estava terrivelmente acostumada a tudo ali e podia
sentir cada mínima diferença. Naquela manhã muita coisa mudou.
O som, um apito longo acompanhado de um rangido metálico que
ficava mais forte a cada minuto.
Naquela manhã ensolarada, Cassandra conheceu um trem e
se perguntou por quê.”
Mais uma vez o autor se viu sem saída. Queria que algo
marcante acontecesse ali, mas não sabia como isso seria feito. O
trem veio trazer ou buscar? O quê? Pra onde?

Deixou o caderno sobre a cama e se pôs mais uma vez a
admirar a vida janela afora. Pessoas caminhavam e seguiam seus
destinos. O autor imaginou Cassandra entre elas e se deu conta de
que era hora de acabar com a solidão da sua personagem e talvez
com a sua própria.

O próximo capitulo seria a morte da solidão.

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Vinicius Maboni
Um sonhador nato, um escritor beta (e preguiçoso). Um ser humano em treinamento.

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