Overdose Poética

Cassandra IV

IV

Há dias o escritor não conseguia escrever. Queria que a
chegada do trem trouxesse grande mudança à monótona vida de
sua personagem. Mas escrever sobre uma vida não solitária lhe era
muito difícil, uma vez que desconhecia tal coisa. Mas sentia-se
como se houvesse abandonado Cassandra num mundo congelado,
imaginava-a estática esperando que seu destino fosse definido.
E então escreveu, quase como se precisasse se livrar de algo
que machucava seu coração.
“De imediato, Cassandra temeu o trem. Deixou que os dias
passassem e esperava que a grande máquina se cansasse de
esperar e simplesmente fosse embora. Demorou até que tivesse
coragem de fazer o primeiro contato físico com ele e demorou ainda
mais pra fazer o segundo. O metal era frio, o que só lhe deixava
mais assustada.”
Essa última frase deixou o escritor pensativo, também tinha
um trem de metal em sua vida. Estava ali parado, desligado e frio,
esperando, mas pelo quê? Qual era seu real significado? Teria o
destino simplesmente o colocado ali, assim como ele próprio fizera
com Cassandra?
Demorou a se dar conta de que havia parado de pensar em
sua personagem pra pensar em sua própria vida. Na tentativa de se

concentrar, executou o já ritualístico ato de colocar o lápis sobre o
papel, mas estranhamente, logo estava a escrever de novo.
“Certa noite Cassandra ficou a observar a o trem parado em
seu jardim. Ninguém jamais estivera ali e talvez ela nem mesmo
soubesse que havia alguém que pudesse vir. Sentia-se irritada,
questionava o porquê de ele simplesmente não ir embora. Estava
bem sem ele.
Mentira, não estava. E ela sabia disso. Algo lhe causava uma
angústia todo dia. Observar a beleza das flores lhe doía, sentir o
vento não era mais prazeroso. Faltava algo e naquela noite
descobriu como se livrar desse aperto no peito.”
Deixou o caderno sobre a mesa, levantou-se e foi olhar pela
janela. Observou que ultimamente sempre fazia isso quando havia
de questionar algo, mesmo que em si mesmo. Sabia de alguma
forma que a resposta estava lá fora e que precisava encontrá-la.
Descobriu que se sujeitar à solidão era abandonar a si
mesmo. Era hora de Cassandra fazer a mesma coisa.
“Chovia quando Cassandra saiu da casa no meio da noite.
Vestia roupa de dormir, sentia frio, mas por um motivo que ainda
desconhecia, sabia que devia entrar naquele trem. E foi o que ela
fez.”
E também era o que ele iria fazer, só então percebeu sua
estrita ligação com seu texto.

Vinicius Maboni

Um sonhador nato, um escritor beta (e preguiçoso). Um ser humano em treinamento.

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