VI

A sala era uma confusa miscelânea de cores e telas
completas, inacabadas e completamente em branco, eram os
únicos decorativos ali. Era um cômodo grande e cheirava à criação.
O autor estava no lugar certo.

Após bater na porta se deparou com os olhos castanhos dos
quais sempre sentiu falta. Palavras se fizeram desnecessárias e
num simples abraço tudo foi compreendido. Não precisavam citar o
passado, nunca mais.

A artista leu o texto e conheceu Cassandra, instantaneamente
imagens dela se formaram em sua mente e com poucas palavras
haviam juntos decidido o destino da personagem.

“Cassandra caminhou lentamente entre as ruas da cidade
monocolor. Admirava a existência de tanta coisa e se entristecia por
tudo aquilo estar aparentemente abandonado e sem vida.”

Enquanto o autor escrevia suas poucas linhas, a cidade de
traços surgia numa tela branca, pelas mãos da bela artista. Ele a
observava trabalhar. Sua Cassandra, só então se deu conta disso.
A cidade tornava-se quase tangível mas ainda faltava algo e ele
sabia bem do que se tratava.

Faltava cor.

“Não demorou até que Cassandra se desse conta da maior
diferença daquela cidade pra sua casa: esta última tinha cores. O
que poderia ela fazer então? Aquele lugar era imenso, era frio,
queria voltar.

Mas o querer é apenas uma manifestação ilusória. Uma
teoria. A verdade é que existem linhas já escritas pro que vamos
viver e há muito Cassandra pensava nisso.
No caminho de volta ao trem, encontrou uma nobre figura
solitária. O rapaz tinha um balde de tinta e com um sorriso no rosto
adicionava cores àquele quase deserto de contornos”
A ideia inicial não era colorir a cidade, Cassandra deveria
encontrar o garoto lá e levá-lo com ela, mas o autor descobriu que
isso não seria bom, seria triste e não queria ler Cassandra e ver
algo assim.
Assim descobriu como dar vida a seu mundo preto e branco.
“Havia por perto do rapaz mais um pincel, esse ainda limpo.
Cassandra quis desconsiderar aquilo e voltar pra casa, mas se
lembrou que lá era frio e solitário, propriedades que aquela cidade
estava perdendo.
Aproximou-se timidamente e pegou o segundo pincel, o rapaz
lhe lançou um olhar simples e feliz e continuou a pintar. Ambos
sabiam, não era vida recomeçando, era a vida nascendo.”

No quadro, a cidade também ganhava cores e o coração do
autor ganhava vida, admirou o texto onde Cassandra vivia e
perguntou-se o que seria ela afinal. Um reflexo de seus desejos,
talvez?

Estava feito, seu texto que lhe impediu tanto o sono estava
pronto e sua personagem na verdade estava ali, diante dele,
pintando a cidade, assim como a Cassandra do papel, buscava nas
cores os motivos pra viver.

Não, mais que isso, os motivos pra sorrir.

SHARE
Previous articleVem novidade ai!
Next articleCarta para ex
Vinicius Maboni
Um sonhador nato, um escritor beta (e preguiçoso). Um ser humano em treinamento.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here