Fiquei sabendo que você vem no carnaval.
Pode vir. Só que não estou morando naquele antigo endereço. Mas pode entrar. A chave está debaixo do tapete. Estou terminando algumas reformas na casa, desde que você partiu; então, cuidado com as lâmpadas pois estão fracas.
Perdoe-me por não poder ficar. Estaremos viajando na sexta de manhã. Mas me senti na obrigação de deixar este bilhete em cima dessa escrivaninha para dar-lhe as boas vindas ao seu reencontro aos seus antigos aposentos.
Visito a casa de vez em quando e digo, cuidado ao entrar. Mudei minhas coisas de lugar. No quarto dos fundos, tem uma caixa de pertences seus. Leve-os, por favor, com você, ao sair novamente. Na geladeira, ainda tem aquele chocolate suíço que você me deu de presente. Engraçado perceber, que os presentes que você me deu, no fundo eram quase todos pensando em você mesmo. Mas deixa. Eu nunca gostei de amargor mesmo, nem na boca, nem na alma.
Na sala, existem duas novas fotos. Olhe o meu sorriso e um outro recíproco. Tirei a nossa, com sua cara fechada do porta retrato. A foto está dentro da agenda preta que você insistiu para que eu comprasse, naquele dia, em que desejei ganhar de ti uma flor. Tem também uma loção pós barba sua no armário superior do banheiro. Não a tirei de lá para não perder. Ou para quando sentir o seu cheiro, quando a saudade jurasse me matar. Veja só você que ela não jurou.
Não se assuste ao abrir o meu guarda-roupas e algumas peças masculinas estiverem por lá e não forem as suas. Já te disse estão no quartinho dos fundos. A vida me ensinou a deixar em silêncio minhas novas verdades e a seguir em frente. Amar baixinho, quietinho, faz tão bem, sabia? Por isso não contei.
Disseram-me que você me queria de volta no carnaval. Desculpa! Não vai dar, qualquer coisa te indico alguém. E para ajudar seu analista, por qualquer coisa: ”Desculpa!”.
Parafraseando Cícero: Açúcar ou adoçante?