Quinta do Autor

Era Quase Dia

De um sono intenso despertava o menino, quando o primeiro raio de sol que o horizonte dispusera insistiu em tocar sua face. Ainda zonzo de sono lembrou do toque que outrora o aquecia… Não que agora lhe faltasse calor, pois em meio ao cerrado sempre se encontra dessas fontes. Mas o toque era único. Tanto quanto aquele olhar que enfeitiçava seus pensamentos.
Levantou-se depressa como quem não tem tempo a perder e decidido e tranquilo planejou o resgate. Sabia de seus perigos e da dor que rondeava seu peito, no entanto pouco importava… já não queria voltar ao passado, coisas que queria quando criança.
Agora achava tão efêmeras as oportunidades da vida que não lhe valeria o tempo repaginando a própria história. Estava determinado a alterar o presente ou quem sabe o futuro, estes sim fariam a diferença e lhe trariam no meio de suas incertezas algumas respostas.
Logo estava ante ao espelho e no meio de uma conversa interna sorriu. Sorriu e partiu sem olhar para trás, iria ao encontra dela… Quando na verdade percebeu que já não havia plano, sequer teria pensado no que dizer, restava apenas aquela vontade, um sentimento, o reviver…
Armou-se de seu violão e dirigiu em rumo a seu coração. O encontro não foi difícil, pois ela também o esperava sem nem mesmo saber porquê. O que lhe faltaria seriam as palavras, mas que talvez nem fossem necessárias… não agora.
Pararam em frente ao lago, uma praia deserta que pelo forte vento mais parecia com o mar, as ondas batiam entre as pedras e, como respingos de vida, as águas lhes refrescavam. Sentados entre o barulho das ondas e o intenso chiado do vento trocavam algumas palavras, mas os olhares ainda distantes os impediam de desfrutar do que não se arrependeriam.
Tomou lhe um trago de um cigarro e se pôs a tocar, nesse momento poderia ser sincero, mostrar de todo seu peito, mais uma canção… Por um momento trocaram olhares que de tão sinceros o silêncio enchia-se de razão. E em um abraço sereno lhe trouxeram paz como ao colocarem os pés na água. Em sua mente milhões de frases a serem ditas, preferiu ficar calado. Assim soube bem sobre o que aconteceu e sobre suas marcas seguiu seu caminho, já não estava sozinho…
É verdadeira a razão do silêncio, mas assim não se pode explicar sobre amor, pensou o menino… talvez nem tudo precisa ser dito, mas deste erro esperou que ela também tenha aprendido.
Ao final do encontro, logo veio a chuva regar o que faltava, mas com seus trovões acordou o menino que despercebido se viu em mais uma noite solitária. Não passava de um sonho…
Matheus Barreto Areias

"Convicções são Cárceres."

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