Quinta do Autor

Eu não consigo te entender

Por mais que eu tente, eu não consigo entender você.

E sabe, tem dias que me afundo em recordações. A forma como suas pálpebras se fecham involuntariamente quando minhas mãos passeiam pelos mínimos detalhes do seu rosto. Cada um dos milhões de sinaizinhos, cada expressão, cada fio de barba, além dos lábios acolhedores, a um toque de distância.

Seu meio sorriso que não revela nem meias verdades. O olhar passivo que aguarda cada um dos meus movimentos sem pressa e depois encara o vazio sem dizer absolutamente nada. Tudo isso me confunde.

Como quando você me segura até chegar onde quer. Ou quando se permite repousar em meus braços em um sono tranquilo em meio a minhas carícias. Ou quando consegue passar horas ao meu lado conversando como se a chuva não caísse lá fora, como se nada mais importasse além do agora.

Mas eu sei que você vai embora, mesmo que seja eu a me levantar primeiro. Vai desaparecer no primeiro vento que levar essa chuva daqui. E eu vou amargar todas essas lembranças por dias, vez ou outra.

Vou me desvencilhar de qualquer oportunidade de te ver de novo. Vou tentar de algum jeito fazer você sentir minha falta, mesmo sabendo que tá vivendo a sua vida.

E quando você se anunciar, de uma hora pra outra, eu vou rir. Porque lá no fundo sei que todo esse desgaste acaba te trazendo de volta. E eu meio que sou feliz assim.

É um daqueles castigos que a gente se impõe porque sabe que logo se transformarão em trégua e se aninharão ali, no mesmo lugar de sempre. Lugar onde sei que não fui a única, mas tenho o gostinho bom de que cheguei a ser, pelo menos por instantes.

A real é que no final da história nem eu me entendo mesmo.

Ana Gabriela Regis

Escritora quando o chão some dos pés, jornalista por decisão.