Júlia já havia tido um relacionamento com Pedro. Sem delongas, viram que ambas as personalidades queriam rumos distintos, nada que não resultasse em um fim compreensível para os dois. Alguns meses, quase anos depois, Pedro ressurgiu na vida de Júlia. Ela, anestesiada de outro término, quis tê-lo como amigo. Apesar da dificuldade que se baseia na amizade entre ex-parceiros, o respeito entre os dois era algo mutuo.

Um dia, depois de manterem uma relação virtual saudável, Pedro pediu para rever Júlia, o que em parte, não havia de ser um problema. Ele continuava o cavalheiro galanteador, mas bem sabia que ela já não nutria ou correspondia seus sentimentos. Marcaram.

Apesar deles terem conversado sobre a vida de cada um e terem se reconhecido em traços marcantes de suas personalidades, o foco da história não é de como ex-parceiros conseguem se relacionar. Aqui, eu relato a história de Júlia, a garota do grito contido.

No decorrer do relacionamento, ela já havia percebido traços grosseiros em Pedro. Mas acarretava de colocar a culpa na correria do dia ou em qualquer outra coisa que não lhe denegrisse de alguma forma. O que Júlia não sabia, é que, esse mesmo cara que lhe respeitou durante meses, naquela noite lhe apresentaria o abuso.

Pedro não estava interessado nas coisas que ela dizia sobre a vida, nunca esteve. Para ele, Júlia representava sexo e ainda que ela negasse, não havia como ela ir embora dali. Hoje ela seria dele, como nunca havia sido antes. Onde estava o respeito com as escolhas dela? Isso não existe. SE A MULHER TOPA SAIR COM VOCÊ, ELA QUER TE DAR. Essas foram as palavras que ele pronunciou quando ela disse o primeiro NÃO.

Ele havia pensado em tudo. Estavam isolados e não havia possibilidade de ela ir embora sem ele. Se ela gritasse, ninguém a ouviria. O que impediria Júlia de ser sua?

Pedro se jogou em cima dela, prendendo-a de encontro com o seu corpo. Uma de suas mãos lhe tapou a boca, enquanto a outra tentava “delicadamente” lhe subir a saia. “Você veio de saia para facilitar as coisas. ” Ele pressionava sua ereção na barriga dela para que ela soubesse que estava indo bem. Quanto mais Júlia tentava se soltar, mais Pedro se empolgava. Intermináveis minutos se prolongaram.

Pouparei o público dos detalhes sórdidos que a história dessa garota contém. Ela conseguiu se soltar de seu ex-parceiro, se esse ainda é o foco desse texto. Depois de espernear, morder e gritar, ela finalmente se livrou das mãos que lhe machucaram. Claro que ele continuou tentando. Por quê ele pararia? “Você quer, eu sei que sim. ” “Ninguém vai saber, eu prometo.”

Eis aqui, o problema. As vítimas de abusos como esse e outros mil, têm medo, vergonha e repulsa em narrar dores físicas e psíquicas. Ninguém fica sabendo do que houve, Júlia volta pra casa, Pedro sai impune e as mulheres continuam como propriedades. Sim, por que há outras Júlias por aí. Elas se calam e a redoma do mundo continua a girar. O abuso é minucioso, atente-se aos detalhes.

Existe milhões de assuntos dentro da cultura do abuso, mas hoje eu deixo meu desabafo quanto à história de Júlia: lá fora, há inúmeros homens que não se importam com nossos corpos ou nossas vontades. Os horrores que acontecem conosco não são considerados crimes horrendos como deviam ser. Não é apenas uma forma de alfinetar as artimanhas do patriarcado, mas sim de gritar pro mundo que EU SOU LIVRE!

Eu sou a Júlia, e já conheci inúmeras Júlias por ai. Sempre achei que a culpa fosse minha, e bem no fundo, uma parte vai balançar quando eu ouvir de alguém: VOCÊ TAVA DE SAIA, VOCÊ ACEITOU SAIR COM ELE, O QUE VOCÊ QUERIA?

Hoje eu sinto raiva ao escrever isso. Raiva por ter ido, raiva por ter usado saia, raiva por confiar. Às vezes, raiva por ser mulher. Por que apesar de querer dizer: “vamos todas nos ajudar”, eu sei que o mundo não está preocupado em nos ajudar. Os índices, revistas, telejornais nos mostram isso diariamente.

Ainda que hoje eu tenha dado um passo enorme ao escrever essa história, o meu grito contido continua aqui. Por que eu sou a Júlia, e essa história não reflete a minha liberdade (que devia ser minha por direito).

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Hanna Martinelli
"Há duas coisas que você precisa saber sobre mim: Sou colecionadora de sonhos e escrevo sobre tudo. Ás vezes, até sobre o nada."

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