Cada vergonha é mera inocência.
Mas que no escuro espreme-se algum pomo
De suco azedo, quase que a demência,
Do ser que não confia no seu dono.

Ai, aquela maçã na mão do ramo,
Aquela mão da doce inconsequência
Furtando um doce quando ao fim de ano,
Adverte-nos, o olhar dono da festa.

Ai…

Por que não meditar também o seco,
Sim, o seco som desse deserto,
Que, de canto presunçoso e pitoresco,
É vento a dispersar o já disperso?

Se tu queres livraste de ti mesmo,
E ver-te como espelho do universo,
Não dá pra ser macaco e nem jumento
Que ri do fim do pasto ou do arvoredo.

Voltando então a falar de inocência:
O é também este teu gesto bobo,
Na praça, quando, no meio do povo,
Tu finges alto e belo como a Phlebas.

E ergue a mão e mexe e dança e senta,
Levanta, cai, pendura, cai de novo,
E xinga a folha, o céu, o cão e a velha
Que cruza a rua com o marido morto.

Que cruza a rua com o marido morto…

Não confundas teu manto com teu ombro,
Nem tua boca com teu elixir;
O mar marulha mesmo se não ouvis
E a planta cresce mesmo sem jardim.

Se esta rua, se esta rua fosse tua,
Tu não precisarias nela andar;
E se o bosque a noite inteira riu pra lua,
Algum anjo vive só, e bem, por lá.

Não gastes todo o banho no chuveiro, 
Escorrendo teu dia pelo braço,
Deixe prender no ralo teu cabelo
E fique ali, curvado, no embaraço

Desalinhado fio a fio sem medo
Num banho mais profundo e mais molhado;
Tal como as mãos de Deus num puro gesto
Moldando o corpo puro sobre o barro.