Por eu não ter coragem de dizer-lhe

Pura e simplesmente
o que eu lhe sinto, vai,
poema, à minha novinha,
que, embora nunca tido uma conversinha,
entre ela e eu,
vai dizer-lhe o que a faz meu absinto,
o amor meu,
dizer-lhe o que pra mim sobre ela minto.
Vai contar que nela eu penso muito,
mas que sou frouxo
e, com meu pé de metro mais que coxo,
tombo de lado só de a ver passar.
Que a amo como amo o espectro dela
cravado em mim
qual sombra num espelho,
e antes que ela franze o sobrecenho, poema,
tentando compreender este narciso,
vai, e lhe diga o que é preciso:
que ela venha e que se crave feito flecha,
no meu fígado.
Pergunta se ela quer ficar comigo
num banquinho ali da Praça da Matriz,
e, aproveitando a rima,
fala que ela é minha imperatriz,
latina não, mas de funk mesmo.
Por medo da possível rejeição,
que a mim deslumbra todo como a morte;

brochura, sei, ou, como dizem, eu ser “cagão”,
por ter do que eles falam muito medo,
eu suo, eu tremo, eu, sei lá, meio que… requebro;
tipo:
culpa do pensamento,
que, empacado, qual puto jumento,
não sabe distinguir sopro de vento.
Embargada voz, melhor quando calada,
não pode ver decote que ela trava
e fica pra si mesma apresentando
a peça que ensaiou por toda estrada, e,
quando, na hora exata,
treme na pontinha duma agulha,
na ponta do alfinete equilibrando.
Encontrará, poema, uma novinha
com celular no bolso do shortinho,
shortinho que, entrando até o talo,
me faz encher o peito e bancar galo,
mas quando perto dele vai murchando,
tremendo todo diante da covinha.
Então, poema, vai, arruma a minha casa,
que tremo a corpo todo se ela passa.