Overdose Poética

MALDITAS HELENAS OU BENDITAS

Descalça. Entre os sofás, encapuzados ridiculamente de onças, da sala, Helena faz o seu mundo cinza girar.

Os aparelhos sonoros ligados em um volume estrondoso. Ela gira no retângulo frio formado pela falta de móveis. O chão está frio. O seu corpo quente.

Helena dança o Rock. Em um estilo frenético, mistura sensualidade com os embalos descompassados de seu quadril. Imagina cenas, faz caras e bocas. Sorri. Canta junto. Dança ao som de baterias e solos de guitarras. Gira a cabeça. Bate os cabelos. Sensualidade mesclando, gritando, sempre com coisas que ela não imaginava fazer. Deixou-se ser música. Bailarina. Se é que rock combina com o termo.

O ritmo aumenta, e seu cropped diminui. Os pulos e giros de Helena são deveras excitantes. A cada nova batida na canção a calça de couro é mais colada no seu corpo. Descalça. Os pés revelam o seu branco e o seu cuidado com unhas vermelhas. Mais uma nota alta e um grito de sua banda favorita. Ela pula e gira sem parar e a mini blusa deixa a mostra como se quisesse o tempo todo, um sutiã preto e um convite totalmente absurdo, para apenas amigos.

Seu cabelo curto bate na batida da música de um lado para outro. O meu coração dispara. Ela dança e anda em minha direção. E me lança a mão. Eu penso: ”Oh não!”. Balanço a cabeça e balanço o corpo. Como se ela fosse sempre a certeza de que eu atestei o meu certificado de um mero “idiota”, só para ver Helena soada, descabelada ao fim da noite, naquele chão frio.

A gente se beija meio sem jeito. Se pega meio sem jeito. E é a coisa que mais gosto em Helena. Ela finge que toda aquela sensualidade desajeitada era no fundo para que eu tivesse coragem de apertar o start de um romance que em nossos olhos já era mais que letra. Era música. Música dançante.

E depois do play a gente dançou. Olhou para o nosso céu cinza do telhado e pensou no que a gente havia feito. Ficamos em silêncio. Helena levantou-se, e escondeu os pés brancos e as unhas vermelhas nas botas pretas. Não fez alarde. Ficou sentada no sofá, olhando-me girar com preguiça de me levantar. Ela engatinhou, como felina, fazendo uma conotação idiota com o tecidos do sofá, e encostou os lábios sobre os meus. Eu fiquei em silêncio. Olhando-a. Sentindo o seu hálito fresco. Hálito que convidava-me ao pecado. Seus olhos cerrados se abriram e a mesma boca me perguntou:

_Por que será que a gente finge que nada acontece, quando no fundo, a gente sabe que tudo acontece?

Helena sorriu. Puxou-me pela mão e me fez dançar de novo. Ela não queria respostas prontas. Eu sabia disso.

Ficamos ali dançando. Até que o mundo nos chamou de volta. Ela tinha mania de me fazer querer a eternidade de um momento.

Talvez isso um dia vire música. Malditas Helenas. Ou bendidas. Não sei.

Natália Rezende

Um ser amor. Acredita em contos de fadas e em todos os mundos mágicos do universo das palavras. Das mais certas, mas também possuí incertezas. Um pouco louca. Escreve e sonha.

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