Era uma casa de mamulengo.

O seu artesão, vivia só pra um,
Esse ele não vendia, era seu,
Desse mamulengo ele brincava,
Pintava e bordava.

Dias de frio era a sua companhia.

Mas nos dias de festejos já ia ele simbora, com os demais bonecos de fantasia, vender suas ilusões.

E vendia todos na quermesse.
Tinha uma missa, mas lá não ia.
Afinal, o trocado dava pra tomar as suas pingas,
Ficar embriagado, e voltar pra sua lida, pra sua vida.

Na sua casa,
tinha um mamulengo que ele dizia ser o melhor,
Às vezes ele não sabia onde estava.
Deixava jogado em qualquer lugar,
Mas era o que ele tinha de melhor.

De tempos, em tempos ele reformava e deformava,
Arrancava a roupa e metia o escopo, martelo e suas pancadas eram pra melhorar, assim dizia ele.
Artesão que vivia de sua arte, encantava com todos os seus bonecos.

Mas ninguém sabia, como ele vivia,
E quem não vivia com ele, não vivia,
Porque aquilo não era vida.

Seu Mamulengo,
Que ele não vendia era que pagava o preço caro, alto da submissão.
Que lavava a sua roupa todo dia
Que aguentava a sua cachaça,
Que criava os seus filhos,
Que ele trancava em casa, batia, brincava, usava,
“Reformava a sua cara para o bem”.

Assim era,

Assim é.

São bonecas surradas,
Marionetes e mamulengos nas mãos de seus donos,
Sonhos não tem,
Vida não tem
É só um brinquedo de serventia.
Era a única ” coisa ” boa:

Mulher-mãe-mamulengo.

Paula Battistela

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Paula Battistela

"Não vim pra desistir".