A literatura é a MULHER e faz a MULHER. É a maneira como ela se posiciona no mundo e a forma que ela o modifica. Recebemos o relato de uma leitora essa semana que sofreu  violências, e com toda a certeza do mundo, que há em suas palavras, senti que retirou forças e se posicionou através da escrita para continuar caminhando em busca de seus objetivos. Eu não a conheço pessoalmente, mas as suas palavras me encheram de gratidão e eu te digo… “moça, conta comigo! Tem do seu giz na nossa alma feminina que sangra, mas que cicatriza. Tem o seu grito em nós aqui no GDA e a sua força, faz desses pequenininhos aqui, viu moça, um tantozinho mais forte. A tua literatura abriu nossos horizontes e como você saberemos gritar e ajudar.”

CARTA

Moça, há algum tempo venho tentando formar algumas frases, mas elas simplesmente não tinham nexo algum. Tentei escrever diversas vezes, mas tudo que eu conseguia eram algumas linhas disformes e retorcidas. Desculpe, é que ainda estava uma bagunça aqui dentro. A verdade é que ainda doía um pouco falar a respeito. Ontem, eu procurei palavras para te dizer algo mas não pude. Faltava-me inspiração e sem inspiração as palavras saem, mas não fazem sentido.

 Hoje, porém, acordei sabendo exatamente o que dizer. Moça, a verdade é que o mundo tem sido um lugar difícil para você, que mesmo na sua versão mais forte, ainda é frágil. É lamentável. Mas é preciso reconhecer. Hoje eu sei o medo que tantas mulheres enfrentam dia após dia. Foi preciso que algo tão repulsivo me ocorresse para reacender a chama da revolta em mim, que por necessidade há muito tempo eu havia apagado. Note, minha querida, que eu usei a palavra ‘reacender’.

Hoje eu preciso dizer para você moça, e para todos que me leem, coisas que eu guardei a vida toda por medo, por vergonha e por culpa. Quero deixar claro que nada desejo aqui, senão incentivar você e todas as moças a superar. Que você não está sozinha e que independente de qualquer coisa, você é sua maior companheira, jamais se abandone.

Moça, eu também me sentia segura quando ele se aproximava de mim dizendo que eu podia confiar. Primeiro foram os esbarrões acidentais, em seguida a curiosidade em saber qual a cor da minha calcinha. Mas tudo bem, ele era da família, e a função da família é sempre cuidar e proteger. Engano leviano. Mas aí veio a curiosidade de tocar. Ele era alguém importante, eu não podia desaponta-lo ou deixa-lo bravo. Ele cuidava de mim. Era minha obrigação deixa-lo contente. Até que um dia, sozinhos, a curiosidade aumentou, a necessidade do toque foi além. Gritos abafados não fazem barulho.

 Enquanto te escrevo isso moça, sou obrigada a reviver cada momento que eu havia trancafiado em minha memória mais profunda. O julgamento virá tão torrencial quanto a chuva que cai lá fora. Mas eu me recuso a parar agora. Isso se repetiu ainda algumas vezes, até que eu tive a sorte de deixar tudo para trás e recomeçar. Mas as lembranças são como facas afiadas que cortam ao menor contato. Elas torturam, moça. O sentimento de revolta e culpa invadem a alma e a gente perde o brilho e vai murchando até secar. Mas nessa altura do campeonato me vi entre dois caminhos: Permitir que ele continuasse me machucando a vida inteira, ou retomar o controle da minha própria vida e seguir em frente.

 Eu ainda estou aqui. Mas garanto que isso precisou de todas as forças que eu pude reunir no meu ser. Totalmente sozinha, foi uma luta solitária e heroica travada dia após dia, incansavelmente. O silêncio era meu inimigo mais cúmplice. Permaneci calada por anos. Mas a vida não é só cinza. Se permitir enxergar o arco-íris é o primeiro passo. As outras nuances vão reaparecendo naturalmente. A vida vale a pena.

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 O problema com os fantasmas que você enterra no passado, é que eles voltam para assombrar o seu presente. Naquela rua, sozinha, uma década e meia depois de tudo, eles regressaram para puxar meu pé. Eram 20:00 h e eu retornava do trabalho. De repente, a voz de assalto. Correr e gritar eram minhas únicas armas de defesa. Mas claro, eu fui alcançada. E quando você não obedece ao bandido, você paga o preço. Quanto eu paguei? Meu orgulho e meu ego, junto com toda a minha ideia de superação. Alguns arranhões e hematomas pelo braço, uma mordida sangrando na mão, a região das costelas roxas, após um golpe e a garganta tentando passar algum ar depois de ter sido asfixiada até o corpo perder toda e qualquer reação. Novamente sozinha, desprotegida e completamente impotente jogada no chão da calçada escura de uma rua qualquer, enquanto algumas pessoas assistiam inertes sem esboçar qualquer reação de ajuda. Novamente, a fé na humanidade escapava pelos meus dedos. Novamente invadida pelo ódio e escárnio. Novamente tive que decidir entre deixar a dor me invadir ou seguir em frente. Mas desta vez, eu decidi sentir a dor também. Decidi transforma-la e quem sabe poder usá-la para que ela acarretasse em alguma coisa boa para alguém, mesmo que apenas em forma de um silencioso abraço de conforto a um coração assombrado pelos mesmos fantasmas. Tava na hora de exorcizar os meus demônios.

 A verdade moça, é que eu ainda não sei como tudo isso vai repercutir na minha vida e na minha família, não sei como meus amigos me olharão a partir de hoje e ainda não sei o impacto que isso vai causar ao meu atual relacionamento. Quando eu chegar em casa hoje, provavelmente terei uma noite difícil de explicações. Mas tudo isso terá valido a pena se você moça, puder por favor não desistir de lutar. Lute por você, pela sua amiga, pelas outras moças que se encontram na mesma situação que eu ou ainda pior. Muitas vezes, alguém que está ao seu lado também carrega alguns fantasmas. Seja sempre gentil! Essa é uma batalha pessoal e intransferível, mas você não precisa enfrenta-la sozinha. E por favor, se você estiver passando por isso agora, lembre-se, quando você protege o monstro, está dando a ele o poder de continuar fazendo presas com a certeza de jamais ser capturado. Se perdoar é o mais importante, não esqueça que a culpa é sempre do agressor. Moça, seja a voz daquelas que não podem se expressar. Juntas podemos transformar o mundo. Desejo força e coragem!!!

EM CASO DE QUALQUER TIPO DE VIOLÊNCIA SOFRIDA, DISQUE 180. POR FAVOR NÃO SE CALE.

3 COMMENTS

  1. “Mas tudo isso terá valido a pena se você moça, puder por favor não desistir de lutar. Lute por você, pela sua amiga, pelas outras moças que se encontram na mesma situação que eu ou ainda pior”

    Ouça essas palavras de sabedoria e saiba extrair força dos momentos mais difíceis. Não esmoreça!

  2. Moça seus pés é tua carruagem ,a tua força e a chave de tua libertação .Por favor continue … lute por por você moça.

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