New York. Outono em Nova York. Está frio. Mas existe tanta beleza nas árvores que avisto da janela do meu apartamento situada em uma avenida aconchegante no centro da cidade. Avisto ao longe, seminuas, as árvores com cores que não estava acostumada a ver. Encantam-me e enchem os olhos com seus tons amarelados e dourados, mescladas com o céu unicamente cinza, um prenúncio de inverno e também impactado pela poluição.

Maurício me desperta de minha visão estonteante, tocando minha pele, num gélido beijo em minhas costas descobertas. O lençol de seda, apesar do frio, cobria apenas os meus seios que mais parecem duas bolinhas de gude. Mal se mostram. As minhas costas vivem descobertas dentro de casa. E Maurício diz que adora cobri-las de beijos assim que as vê sem algum tecido. Mais um motivo especial para mantê-las à mostra.

Levantamos para mais um dia de trabalho com muito custo. Apesar do aquecedor ligado temos consciência do frio existente lá fora. Corremos atrasados pelos corredores do meu apartamento, e quase sempre ele ao se deparar comigo, tentando fechar o último botão da camisa me pressiona contra uma das paredes e me beija, amassando minha roupa e borrando o meu batom vermelho… e lá vou eu então correndo de scarpin vermelho aveludado, de mãos dadas, com o homem mais charmoso que usa cachecol rumo ao coração de Manhattan.

É no coração de Manhattan que eu, Julia, trabalho. Sou jornalista. Maurício é biólogo. Nos conhecemos pela internet.

Nesses diálogos de que podemos mudar o mundo se quisermos, foi que abrimos espaço pra mudarmos o mundo um do outro. Dia desses, olhava atentamente Maurício lendo um artigo sobre as revoltas políticas e seus impactos no mundo. Ele segurava em uma das mãos uma caneca preta contendo café e lia friamente a notícia. Vez ou outra fitava os olhos sobre mim, e logo mais os pousava novamente sobre a tela do notebook. Maurício é estonteante belo! Não ao ponto de ofuscar minha beleza. Nossas belezas se completam. Se somam. Ele lia a notícia e se revoltava. Crianças mortas por bombas e mortes de civis inocentes o deixam transtornado. A vida em si, e a existência é o que o deixa maravilhado consigo mesmo e com tudo ao seu redor. Sua predileção pela humanidade foi o fator de maior relevância para que eu o amasse. Um homem cujo o coração se volta para a humanidade é capaz de se voltar para as mazelas do coração de sua mulher.

Chego no escritório sem fôlego. É muita correria por conta do atraso para uma sedentária nata. A liberdade que meu emprego me garante me leva a ter uma responsabilidade muito maior.

Chego e vou direto ao computador. Tenho algumas Notícias para ler e vários textos para terminar. Sou agora redatora chefe da revista Prime, onde vendemos notícias do mundo globalizado com toques de humanização. Colocamos nossos corações no papel. Claro! Sem que de maneira alguma infrigirmos a ética do jornalismo.

Deparo-me com a uma guerra. Hamas de um lado e Israel de outro.

Observo fotos enviadas pelos nossos fotógrafos e leio as informações do nosso correspondente em Israel. Envergonho-me de meu silêncio perturbador perante os fatos. São crianças como eu. Que se desesperam diante de ataques e bombas que não têm avisos prévios. É triste! É desumano! É um fardo pesado para um povo que não vê esperanças para o fim do conflito. Penso nas questões unicamente políticas e religiosas que em vez de conciliar pessoas somente as afastam. Põem armas nas mãos de pessoas sem instrução. Semeiam o ódio em vez do perdão. Choro diante da dor estampada nas fotos. E me contorço por dentro. Preciso transportar para o papel, para o documento do Word no computador. Fecho os olhos e seco minhas lágrimas. Antes de abrir as pálpebras penso em Maurício. No quanto ele se entristecerá com a minha notícia. Infelizmente, não podemos simplesmente observar a beleza da vista do meu apartamento. Temos olhos de esperanças para a humanidade. E a humanidade tristemente possui visões sombrias.

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Natália Rezende
Um ser amor. Acredita em contos de fadas e em todos os mundos mágicos do universo das palavras. Das mais certas, mas também possuí incertezas. Um pouco louca. Escreve e sonha.