Enquanto fechava os olhos e erguia as mãos em sinal de adoração, percebi famílias abraçadas, crianças transitando pelo corredor e algumas pessoas chorando, ao mesmo tempo em que uma canção exaltando o amor de Deus e decretando sua soberania era entoada. “Por que o mundo ainda não conheceu esse lugar?”, era a pergunta que eu me fazia naquele momento.

 

Devo confessar algo pra você, havia bastante tempo que eu não ia à igreja. Minha relação com a instituição sofreu um distanciamento descomunal – embora minha relação com Deus, em meus pensamentos e devocionais, tenha permanecido. É necessário compreender que nem sempre quem frequenta o templo é, de fato, amigo de Deus. As pessoas estão ali, em grande parte, mais pelo medo da possibilidade de irem para o inferno ou apenas para pedir algo para Ele do que por amor a Ele.

 

Eu nasci e cresci dentro da igreja. De certa forma, isso foi muito bom. A maioria das pessoas que estudaram ou cresceram comigo, infelizmente, morreram, estão presas ou entraram para o mundo do tráfico/criminalidade, e ocupar-me com as questões da congregação, além de ser algo que eu amava e de ter ajudado em minha formação pessoal, livrou-me de muitas coisas ruins que poderiam me sobrevir caso eu tivesse escolhido outros caminhos.

 

A grande questão, no meio disso tudo era minha sexualidade. Eu sou gay. Sempre fui. E desde criança, ouvindo os sermões de exortação que exprimiam veementemente palavras de maldições à homossexualidade, vendo líderes usando o nome de Deus para disseminar o ódio contra qualquer tipo de tendencia gay, tudo isso, fez com que eu me sentisse a pior pessoa do mundo, indigno do amor de Deus.

 

Passava o tempo todo com aquele grito desesperador dentro de mim, implorando a Deus que me fizesse hétero porque eu havia sido ensinado que a homossexualidade me distanciava de Deus, e que os gays tinham passagem garantida, sem dó nem piedade, direto para o inferno. Participei de dezenas de seminários, encontros, ministrações com o intuito de “libertar-me”, como se eu estivesse possuído por um espirito imundo por sentir atração por pessoas do mesmo sexo. Não sei te dizer quantas noites passei em claro, ajoelhado, lutando comigo mesmo, tentando incansavelmente, sem sucesso, vomitar quem eu era.

 

Essa visão corrompida que eu tinha sobre mim mesmo trouxe-me sérios problemas de aceitação, tanto que, depois de uma reunião que eu tive com a liderança, e de ter a minha homossexualidade atribuída a minha falta de fé, eu decidi sair da igreja. Precisava me aceitar, compreender quem eu realmente era, mas para isso acontecer, eu não poderia frequentar um local que ficava o tempo todo lembrando-me que eu merecia o inferno, pelo simples fato de ser quem eu era.

 

Quando contei para minha mãe, ela agiu com a mesma falta de conhecimento e desespero que muitas mães agem, dizendo que preferia a morte a ter um filho gay, não me surpreendi e nem agi como seu meu mundo tivesse caído, apenas afirmei que se eu também pudesse escolher, escolheria morrer. Isso porque o meu mundo havia caído há muitos anos, porém eu precisava viver e buscar ser feliz da forma que eu nasci, portanto, precisava lutar.

 

Precisava conhecer um amor diferente daquele que é defendido em muitos altares, na frente de milhares de pessoas, condicionado sempre a algo que você deve fazer ou aceitar sem questionar. Que usa determinado livro da bíblia para amaldiçoar os gays, mas que desconsidera partes desse mesmo livro que proíbe a ingestão de carne de porco, frutos do mar, corte de cabelo e barba, o uso de roupas feitas com mais de um tipo de tecido, que permite a escravidão de pessoas, que considera impura a mulher em ciclo menstrual, sendo esta proibida até mesmo de ser tocada.

 

Amor exclusivo, que faz uso daquilo que é conveniente para fundamentar atos injustificáveis contrários ao amor, que legitima ações em benefício próprio e propaga a intolerância. Que explora o medo intrínseco nas pessoas a fim de controla-las. Um amor travestido de preconceito, limitado, incapaz de aceitar o próximo como ele realmente é. Afinal, esse é o amor de Deus? Esse é o amor que Jesus ensinou?

 

Ali estava eu, naquela igreja. Enquanto meus olhos naturais estavam fechados para o mundo, minha consciência estava mais desperta que nunca. Uma igreja totalmente inclusiva, com famílias, crianças, gays, lésbicas, héteros, etc. etc. etc. Uma congregação na contra-mão de todas que eu já vi. Que maravilhoso seria o mundo se tivéssemos igrejas sem rótulos, usando seus púlpitos para apregoar a prática da tolerância, do respeito e da benevolência a todos. Preocupada apenas em viver exatamente o que Cristo deixou como mandamento – Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

 

Amar o próximo – o ser humano destituído de qualquer título ou condição, sem cobrar ou esperar nada em troca, respeitando quem ele é. Por que minha mãe não conheceu esse lugar? Por que eu nunca havia ido antes a esse lugar? Se eu tivesse conhecido antes, talvez eu teria sido menos duro comigo mesmo, teria sofrido menos, teria aprendido a me amar mais e a me importar menos com os julgamentos pesados daqueles que me cercavam.

 

Ali estava eu, aprendendo mais um pouco sobre o amor inclusivo, amor sem barreiras, que não faz segregação. Jesus aceitou todos que vinham até ele, sem fazer distinção. E pensando nisso,  com meus olhos fechados, eu não tive dúvidas que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem principados, nem potestades, nem o presente, nem o porvir, nem altura, nem profundidade, “nem os discursos de ódio, nem os julgamentos religiosos cegos”, nem alguma outra criatura ou circunstancia poderia me separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.

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Mateus Adriano
“Acredito nas palavras, como alguém que acredita em milagres. Elas me salvaram por mais de uma vez, e eu, com coração grato, irei anuncia-las com todo meu amor.”

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