(Para ler ao som de Scientist do Coldplay)

Existe um relógio, rodopiando seus ponteiros a todo instante, incansável, às vezes soberbo, mas sempre girando. Existe uma sociedade, líquida, como dizia um grande filósofo, que está se esquecendo das voltas das horas. Comunidades tão presas nas telas de seus smartphones ou em frente aos seus computadores de última geração, com compromissos inadiáveis, que acabam por esquecer que alguns momentos da vida não podem ser adiados. E enquanto isto o relógio continua girando.

Esta manhã um filho tentou dizer algo ao pai, mas os olhos do mesmo não puderam se deter nem um segundo sobre o pequeno. O pai, apressado, apenas ordenou soberbamente ao filho que pegasse sua mochila, pois estavam atrasados. Pobre garoto, só queria dizer ao pai o quanto o amava. Uma fração de segundos depois, ouviu-se o barulho, as ambulâncias soaram ao longe. No noticiário daquele mesmo dia era informado: “… senhor de 40 anos sofreu ferimentos leves, seu filho de cinco anos, infelizmente não resistiu aos ferimentos…” e mais tarde, ao mexer nas roupas do pequeno garoto foi encontrada a pequena folha de papel, retrato de um sonho, onde os pais estavam de mãos dadas com ele em um belo parque, rodeado de árvores, na folha amassada, em letras bastão, lia-se: “Eu amo vocês”. E o relógio não para de rodar.

Algumas semanas atrás ela havia preparado o jantar, fizera a comida favorita de sua companheira, torta de camarão. Ela vestira seu vestido vermelho, colocado seu melhor perfume, e escolheu a melhor garrafa de vinho tinto da pequena adega. Seria naquele dia, ela finalmente teria coragem de pedir a amada em casamento. Elas haviam enfrentado tantas barreiras, tantos preconceitos para chegarem até ali. O telefone tocou. Agitada para atendê-lo, derrubou a taça de vinho tinto em seu colo, o vermelho tornou-se denso como o sangue, denso como o sangue expelido por sua companheira que, informou a policial: “havia sido espancada até a morte pela intolerância”. E o ponteiro do relógio não para nunca de rodar.

Ele não pode ser reiniciado, ninguém pode voltar no tempo ou alterar o passado, o relógio não pode ser parado, os ponteiros podem ser favoráveis ou cruéis, mas tudo isso só depende de você, é relativo ao que você tem feito de seu tempo, seja vivendo ou amando, esperando ou viajando, apenas existindo ou intensamente desfrutando.

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Ygor Phelipe
"Certa noite ele teve um sonho. No sonho, aves nadavam, peixes voavam e tudo parecia tão inverossímil que pela primeira vez viu sentido em algo. E assim, nasceu um sonhador, um homem de mil faces, de milhares de heterônimos e com uma paixão, dar vida aos sonhos por intermédio das palavras. Este é Ygor, pseudônimo Phelipe A., poeta, romancista, apaixonado em palavras e nas viagens que elas nos proporcionam. Por isto, pegue um sonho, abra-o e viva."

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