Crônicas

A pílula e a surra. Onde está o nosso empoderamento?

Comprei pela primeira vez a pílula do dia seguinte. Sem uma vergonha do farmacêutico, homem e adulto, que para a minha surpresa não me olhou com algum preconceito. Será que foi o olhar dele que mudou ou o meu? Não sei ao certo.  Nem saberei se foi só profissionalismo. Ele não sabe dos motivos. Mas eu sei.

Sei que escolhi e confiei em transar com alguém sem camisinha. Sei dos perigos que o ato ocasiona. Ao ponto de tudo ir bem, até que sem o meu CONSENTIMENTO ele resolveu terminar as coisas dentro de mim. Sem sinal de “ei, tô quase lá!”. Terminou e mentiu que não terminou. E eu com cara de tacho, senti uma onda de desespero me invadir. Senti que a minha intimidade havia sido violada. Que eu tinha sido invadida por desrespeito. Sexo não é uma decisão solo. É dialogo. Ainda mais quando isso se trata de outro corpo. Que homens encaixam, mas não são pertencentes. Levantei da cama para nunca mais voltar. E ele soube disso com todas as letras. Porque erros precisam ser gritados, para não serem repetidos. E não estou falando de apenas feminismo aqui, mas da máxima de respeito.

Sai da farmácia me sentindo bem. E ao mesmo tempo fui apedrejada por tamanhas questões.  Comprei a pílula não só por mim. Mas por ela. Minha vizinha. Ela que apanhou até que meus amigos e eu tivéssemos coragem de intervir. Apanhou do irmão que se diz evangélico. Apanhou por ser preguiçosa. Ele gritava isso enquanto socava ela. Os murros eram tão audíveis que me acordaram. As crianças gritavam. E eu sem pensar duas vezes fiz com que meus amigos ligassem para a polícia.

Eu sofri a infância inteira com violência doméstica, vi tantas mulheres apanhando por homens que diziam amá-las. Vi policiais rindo das costas da minha mãe que apanhou de martelo. Vi novamente depois de anos, policiais se justificando em vez de fazer o seu trabalho. Isso sem falar da demora em uma viatura chegar ao local, e atendimento telefônico. Falaram que não podiam fazer nada, já que a ligação não havia sido feita pela vítima. Não entram na casa. Não olharam a moça. Foram embora. Estacionaram o carro na esquina e foram comprar algo no mercado. Eu vi isso enquanto entrava na farmácia.

E ainda fomos ameaçados pelo homem que bateu. “Se vocês ligarem para a polícia taco fogo na casa de vocês”. Não adiantou anotar placa. Ter várias testemunhas. Ver a vizinha dizer que “ainda bem que fizemos algo, já que uma mulher na quadra de baixo havia sido assassinada e ninguém fez nada”. O menino de mais ou menos oito anos me olhou nos olhos e disse que o tio era louco. Não adiantou me sentir um lixo, por não ter feito nada para ajudar antes. Não adiantou as crianças chorarem. Não adiantou o meu desespero. A minha indignação. A briga com os policiais que meu amigo teve. Não adiantou já que os pais falaram que isso não ia mais acontecer passando a mão na cabeça do desiquilíbrio do filho.

Eu comprei a pílula e não pedi para meu amigo comprar, para mostrar para mim, para ela, para qualquer mulher que ler esse texto, que você é forte mulher e não precisa de forma nenhuma de temer lutar contra as violências que você sofre. Seja no corpo ou na alma. Comprei para mostrar que somos fortes, em meio aos dizeres de sexo frágil. Comprei para mostrar que eu não estou errada por transar sem camisinha se confiar em alguém. Comprei para mostrar que ela não é preguiçosa e por isso apanhou. Comprei para mostrar que o mundo precisa entender que o fato de as pessoas não darem certo com outras, não é motivo para agressões alheias. É um ato pequeno. Mas, comprei pelo feminismo. Comprei pelo nosso empoderamento.

Não me sinto de mãos atadas por causa da escrita. Imprimirei essa carta e entregarei a ela. Direi que ela não está sozinha. De alguma forma, sei que aqui começa o planeta que eu desejo.

Editorial GdA

Equipe e colaboradores do Giz da Alma. Este sonho compartilhado é construído junto de mãos trabalhadoras, e de corações compromissados em levar amor por todos o cantos e contos do universo. Somos todos Giz da Alma. É Giz na veia!

Um comentário

Deixe uma resposta