Quando eu era criança, em uma época que a violência não era um fato generalizado na cidade que vivo, e podíamos ficar brincando na rua até tarde da noite, eu chegava em casa, muitas vezes sujo, depois de passar boas horas brincando de pique-esconde, deitava na calçada e ficava olhando para o céu, maravilhado. Era como se o tempo parasse e minhas mãos pequenas pudessem tocar todo esse universo cintilante, de estrelas reluzindo intensamente, numa demonstração de glória quase ilimitada aos meus olhinhos limitados, que pacientemente refletia todo esse brilho. Atração intensa, sensação de pertencimento, de que o céu era um lugar bom de morar.

 

Por muito tempo eu olhei para o céu, me perguntando o motivo disso aqui, dessa fagulha ínfima e quase imperceptível produzida por nossa pequena passagem por esse plano terreno. Desse respirar contado, desse bombear de oxigênio e nutrientes que produzem energia e me mantem ativo, similar a queima de hidrogénio e outros elementos nas estrelas. Vida queimando no universo, vida queimando em mim.

 

Sou poeira cósmica que leva o universo dentro de si. Meus átomos foram gerados a partir de uma estrela localizada a milhões de anos luz daqui. Uma estrela muito especial, talvez a mais especial de todas. Única. Extraordinariamente grande. Uma estrela que levou bilhões de anos até chegar a sua velhice, e como uma rainha majestosa, morreu numa explosão cataclísmica, formando uma supernova de cores inimagináveis, espalhando seus elementos vitais por todo o espaço.

 

Sou partículas. Frações mínimas levando as coordenadas de um todo que foi disseminado por essa vastidão infinita. Frações muitas vezes confusas, olhando para o céu a todo instante, como se algo muito maior e mais forte gritassem por elas, chamando-as de volta, numa linguagem que não pode ser ouvida, apenas sentida. Um sentimento que me toma e deixa claro que, por mais que eu goste daqui, aqui não é verdadeiramente meu lar.

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Mateus Adriano
“Acredito nas palavras, como alguém que acredita em milagres. Elas me salvaram por mais de uma vez, e eu, com coração grato, irei anuncia-las com todo meu amor.”

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