Era de se esperar que o Brasil, com 80% de cristãos, fosse um dos países mais lindos de se viver. Afinal, a base do cristianismo, e da maioria das outras religiões, é o amor. Amor ao próximo, amor ao criador (“amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”), mas não é isso que tem acontecido.

Sei que você já sabe disso, mas não custa repetir: somos um dos países que mais matam gays, lésbicas, travestis e transexuais no mundo. A cada 28 horas, um homossexual morre da forma mais violenta que se possa imaginar, vítima de homofobia no Brasil. Por que somos um país tão desumano?

Defensores da família tradicional, de Adão e Eva, da boa moral e conduta, com um discurso repetitivo, apelativo, homofóbico, ocupam lugares de lideranças em todos os meios, disseminando ódio travestido de verdade, enquanto seres humanos são mortos, como se fossem insetos peçonhentos, todos os dias.

Por que você fica revoltado quando vê um casal do mesmo sexo andando de mãos dadas pelas ruas? No que se refere à forma como as pessoas se expressam através de suas roupas, o que isso interfere na sua vida? Se essas coisas não vão acrescentar um minuto a mais na sua existência, por que você age como se o mundo fosse acabar?

Por que você se sente tão superior a ponto de condenar uma pessoa, que muitas vezes você nem conhece, só por que ela tem vontades e práticas diferentes das suas?

Sou gay. Sabe, por muito tempo eu tive medo dos discursos carregados de ódio, dos olhares preconceituosos, da família tradicional que prefere ter um filho morto a ter um filho gay. Eu sei que eu não deveria ter medo, mas eu tive. Certo dia eu venci todas essas barreiras e decidi ter orgulho de quem eu era, de viver minha verdade sem me preocupar com os julgamentos alheios.

Mas agora, vendo toda essa violência desumana que me cerca, eu sinto medo novamente.

Medo de ser morto a facadas como Itaberli Lozano, 18 anos, em janeiro desse ano. Medo de ter uma mangueira de pressão a ar ligada, enfiada no ânus, enquanto meus órgãos internos são destruídos como no caso de um jovem de 17 anos em Campo Grande – MS. Medo do ódio imensurável que tirou a vida de Emanuelli Muniz, 21 anos, no final de fevereiro, em Anápolis – GO. Medo da humilhação de apanhar no meio da rua enquanto vários expectadores ficam em volta, apenas filmando, sem fazerem absolutamente nada para me salvar, e depois dessa sessão de tortura e vergonha, ser apedrejado por “adolescentes” até a morte, como no caso de Dandara dos Santos, 42 anos, em Fortaleza – CE.

Quantos outros que não temos conhecimento morreram por aí? Pessoas que tiveram suas vidas interrompidas simplesmente porque foram viver aquilo que de fato eram.

Eu tenho nome, tenho uma família, tenho uma história. Sou um bom filho, um bom pai. Estudo e trabalho. Eu sou um ser humano. Eu sou gay. Ser gay não me torna alguém inferior, mas eu preciso te confessar: isso me deixa com medo. Sabe, assim como qualquer outro gay, não quero fazer parte dessa triste estatística que a cada dia que passa faz um número maior de vítimas nesse país tão desigual.

O ponto principal aqui não é o fato de alguém ser gay, até porque não há absolutamente nada de errado nisso, a questão principal aqui é: por que isso te incomoda tanto?

Mateus Adriano

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Mateus Adriano

“Acredito nas palavras, como alguém que acredita em milagres. Elas me salvaram por mais de uma vez, e eu, com coração grato, irei anuncia-las com todo meu amor.”