Mulher SER

Porque você escreve? Tenho muita coisa pra contar

Eu “sinto” tudo na ferida viva do meu coração.

“Viver é melhor que sonhar.
Eu sei que o amor é uma coisa boa”

Eu não gostava muito de falar da minha história. Sim, por pura vergonha, mas hoje reconheço que na caminhada para a superação de traumas implicam também os muitos dizeres. Pois bem, tenho muita coisa velha para contar. Mas, calma! É coisa imersa em novidade.

Sabe eu tive uma infância e adolescência difícil. Mas, não! Não não sou uma pobre coitadinha com enredo de novelas para contar. Sou história comum de mulher negra. Tenho linhas de gente sofrida, porém que ainda busca soluções amáveis.

Eu sou oriunda de lar com violência doméstica.  Cresci vendo minhas mulheres apanharem. Minha mãe sofreu mais violências por causa da sua cor, do que as letras que compõem este texto. Cresci no lar do julgamento do “preto quando não defeca na entrada, certamente o faz durante a saída”.

Lembro que cresci salvando minhas mulheres das bordoadas dos homens que elas amavam. Cresci escondendo faca. Fugindo dos gritos. Cresci fingindo que o mundo lá na frente ia ser melhor pra mim e pra minhas mulheres.

Cresci apanhando livros. Colecionando a verdade diferente da minha realidade. Foram neles que fui me refugiando. Eu era a garota que pulava de uma história para outra, letras que me tirasse dos meus dias complicados. Cresci fugindo dos homens, mas sempre sonhando com o amor.

Imersa neles, vivia lutando para ser mais do que aquilo tudo. Cresci lendo, e escrevendo ficção. Absorvi tudo do que li com olhos tristonhos e vi o mundo com outro olhar. Mesmo assim, eu critiquei os erros. Sofri e ainda sofro todas as consequências deles.

No caminho, eu naufraguei nas minhas mais estranhas “verdades absolutas”. Não me casei virgem. Mas, amei bastante. Não tive três filhos. Não moro na igreja. Abomino religiões. Não fui pra Londres (ainda). Detesto tudo que me prende e me rouba o riso e se isso é viver só, que seja. Mas, acho meio impossível, pois eu sou ser rodeado de gente com coração.

Tornei-me alguém sem futuro ensaiado. Mesmo que no passado já tenha escrito numa página Faceboquiniana e Instagraniana da vida. E é cada coisa que leio sobre um “eu” que queria mudar o mundo, mas que ousou dar tanta volta em si mesma, que até tornou seu maior vício fodido, ser aquele velha metamorfose ambulante.

Eu sou das rimas. Das frases sem sentido. Conexão de coração. Imersão de contexto. Eu sou essa ferida aberta escrachada que só quer amor, elogio e entendimento. Eu sou esse ser carente, minha gente. Carente de Deus, família, amigos e companhia.

Sou a menina-mulher de olhos vermelhos nos ônibus que sofre, chora e ora. Eu sou o meu passado errante, pulsante, e também o meu agora mais lindo e poético, imerso em um cansaço e muita superficialidade.

Eu sou este ser cansado. Completamente conformado, que só escreve por ser tão egoísta. Escrevo pra vomitar a dor e a alegria que deveras sinto. Minto.

Natália Rezende

Um ser amor. Acredita em contos de fadas e em todos os mundos mágicos do universo das palavras. Das mais certas, mas também possuí incertezas. Um pouco louca. Escreve e sonha.