(Para ler ao som de To Build A Home por The Cinematic Orchestra)

E lá estava ela, ajudando-o arrumar a mala, dessa vez deixando-o ir. Dobrava as roupas dele com uma paciência carregado de dor e as colocava suavemente dentro daquela mala marrom com detalhes em folhas verdes. Algumas vezes, parava um pouco o que estava fazendo só para olhá-lo, e seus olhos brilhavam, brilhavam mais do que a primeira vez que o viu, porque o que sentia não era simplesmente uma paixão ardente que temos a primeira vista, agora sim, ela estava sentindo na pele o que era amar de verdade.

O tempo era seu inimigo, a cada segundo que passava morria a certeza de que seria pra sempre, de que esse amor se eternizaria nas estrelas. É duro ter que aceitar que um dia tudo de mais lindo em nossas vidas ficará apenas na história, ela sabia muito bem disso.

Por traz daquele silencio que pairava no ar, ela se sentia uma tola. Ela sabia que aquele amor era impossível, mas mesmo assim ela quis tê-lo, ela quis abraçá-lo e nunca mais deixá-lo ir, lutou até o ultimo momento e entendeu da forma mais cruel que não adianta lutar contra o destino, pois mais cedo ou mais tarde ele mesmo se encarrega de levar de nós aquilo que não nos pertence.

Com isso ela compreendeu que o amor verdadeiro deixa livre e a pessoa amada só se deixa enlaçar se amar na mesma proporção. Aprendeu que amor não se exige, ele é voluntário, gracioso, nunca pede nada em troca. É mais lindo que o bailar das flores ao som do vento, porém pode ser mais devastador que um furacão. E do jeito mais difícil, aprendeu que deixar quem amamos buscar a própria felicidade, felicidade essa que não foi possível encontrar ao nosso lado, é a forma mais dolorida, difícil, porém mais nobre de amar.

Vinte minutos, isso foi tudo. Para ela foi o tempo mais longo e marcante de sua vida. Com certeza, vinte minutos é mais que suficiente para abraçar toda eternidade, pra mudar toda uma vida.

Para ele, vinte minutos era o tempo do alívio, porque durante todos aqueles anos o amor era uma obrigação, um peso. Ele se induzia a amar todos os dias, não com palavras nem com sentimentos, mas com atitudes. Era um amor vazio, mas ele amou, ah como ele amou! Amou mais do que qualquer um pudesse imaginar. Pagou um alto preço para vê-la feliz, abrindo mão da própria felicidade. Ele conhecia, com detalhes, uma parte do amor que poucos conhecem: sacrifício.

Sacrificou a vontade de ir para não deixá-la sozinha, sacrificou a vontade de chorar para vê-la sorrir, sacrificou os próprios passos para andar ao lado dela, sacrificou boa parte do seu tempo, tempo esse que nunca mais voltará. E sempre que fazia uma avaliação de si mesmo, sempre se perguntava “será que isso é amor?” logo respondia a si mesmo “talvez”.

Ele também suportou até o ultimo momento. Na realidade, os dois suportaram. E é difícil tirar conclusões sobre os dois, talvez eles sofreram não porque não amaram, e sim porque não souberam amar. Será que ela tinha um amor egoísta, querendo ele a qualquer custo, e ele tinha um amor cego a ponto de não olhar para si mesmo? Ou então, ela amava sem reservas, e ele amava sem direção? Sinceramente, talvez nem um e nem outro, é provável que essa pergunta fique sem resposta, só existe uma certeza: na totalidade do amor, eles amavam apenas em partes e essas partes não se completavam, deixando assim bem claro que eles não nasceram um para o outro.

Vinte minutos e nada mais. Esse foi o tempo que ele gastou para arrumar suas coisas: as poucas roupas que tinha e a coleção de CDs. Não ia levar mais do que isso, abriu mão de tudo, e pra falar a verdade, abrir mão de coisas materiais era pouco, tendo em vista os vários sentimentos que ele deixou por causa dela.

Ele andou suavemente até a porta, leve como uma pluma, ela por sua vez, com passos pesados o acompanhou. O interior dele era vazio de si, e o dela era ocupado por ele. Um era o paradoxo do outro, contrariando a lei que diz que os opostos se atraem. Ela fazia tudo pra mostrá-lo, ele se anulava. Ela brigava por ele, ele se ausentava. Ela era o ciúmes, ele a tolerância, ela a coragem, ele a covardia. Ela era a voz destacada no meio da multidão, ele era o silencio das montanhas. O desequilíbrio e o equilíbrio que não se encontravam.

Abriu a porta, virou e a olhou em silencio por três segundos. Ela estava parada, braços cruzados, olhar marejado de lágrimas, olhando para ele como se fosse a ultima vez que o veria, coração acelerado quase saindo pela boca, na esperança dele deixar a mala no chão e voltar para abraçá-la e dizer que não iria e que ficaria ali com ela para sempre.

Mas não, não nesse dia e, a partir dele, nunca mais ficaria. Porque ele sabia que lá fora, em algum lugar do mundo, havia alguém feito pra ele, alguém que ele iria conhecer num dia qualquer, em um lugar qualquer, que iria tornar aquele momento tão memorável, que esse dia e esse lugar seriam as recordações mais felizes de sua vida. Alguém que iria ensiná-lo que mesmo sem asas é possível voar, que iria arrebatá-lo para outra dimensão. Então ele não podia ficar, precisava ir pra descobrir que o amor não é um sacrifício obrigatório, e sim uma oferta de um coração prazeroso, voluntário e coberto de alegria. É doar, mas também receber na mesma proporção, uma pista de mão dupla, sem acordar todos os dias com aquele pensamento de “mais um dia” e sim com a certeza de “esse é o dia”, o melhor dia, o dia mais feliz ou o dia mais importante.

Foram três segundos, ambos calados, então ele fechou a porta e se foi, sem dizer uma palavra. No caminho até o táxi, de cabeça baixa, pensativo, ele se perguntou “Será que um dia ainda poderemos ser bons amigos?”, e ela dentro da casa, sozinha e ainda de braços cruzados, mas com o rosto molhado em lágrimas afirmava a si mesma com o coração sangrando “Se depender de mim, não seremos nem amigos!”, é como diz uma música muito conhecida “as vezes o amor dura, mas as vezes ele fere”.

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Mateus Adriano
“Acredito nas palavras, como alguém que acredita em milagres. Elas me salvaram por mais de uma vez, e eu, com coração grato, irei anuncia-las com todo meu amor.”

3 COMMENTS

  1. Linda a sensibilidade em suas palavras!Quantos amores se tornam terrores quando não são doado com liberdade.

  2. Termino em lágrimas esta leitura, acompanhada por esta trilha sonora ao fundo. Que forte! Parabéns por toda sensibilidade e condução com as palavras e sentimentos… Emocionante!

  3. Having read this I thought it was very informative. I appreciate you taking the time and effort to put this article together. I once again find myself spending way to much time both reading and commenting. But so what, it was still worth it!

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