Era noite de terça-feira quando ela olhou o cinto de couro marrom esticado na porta do armário. Um frio correu-lhe pela espinha e uma imensidão de pensamentos passou por sua cabeça.

O Relógio batera 18 horas, o maldito relógio que lhe dizia, com batidas sonoras, cada hora que passava. Ela andou silenciosa pela casa olhando os cantos, os quadros, os móveis. Conhecia tão bem aquela casa que se não enxergasse andaria sem medo por cada cômodo. Aliás, fazia isso regularmente, caminhava em total silêncio e no escuro.

Parou no meio do quarto, aquele cômodo era aterrorizante. Era triste olhar para aquelas paredes, aquele piso, aquelas coisas…

O ar começava a deixar seus pulmões, estava nervosa. Sentia as mãos suadas e o corpo tremer de leve. A cabeça lhe pesava. Por um instante viu toda sua vida em flashs. Lembrou-se da infância pobre mas feliz. Sua família sempre fora cheia de amor, seus pais estavam juntos há mais de 40 anos e sempre foram apaixonados. Uma tristeza profunda a tomou.

Não tinha mais nada de seu, perdera o filho antes de nascer, desistira dos estudos, saira do emprego, mal via a luz do sol… havia um misto de tristeza e raiva que fazia cada pedaço do seu corpo doer.

Respirou fundo e pode sentir o cheiro do café recém-passado e da comida que acabara de ser preparada.

Ouviu a maçaneta se mover e um terror lhe dominou, sabia que havia chegado a hora. Queria correr, gritar… Mas permaneceu em silêncio, parada no meio do quarto, olhando a cama a sua frente e odiando as lembranças que tinha dela.

Ouvia os passos pesados pela casa e a respiração forte. Ouviu o barulho das panelas, o café ser servido e sorvido num gole só. Ouvia a geladeira ser aberta e fechada e depois o silêncio.

Seu corpo doía em cada poro. O silêncio era tão ou mais assustador que a gritaria cotidiana. Ela sabia, sabia como seria. Ele a encontraria, a chamaria de todos os palavrões que julgasse justo, a humilharia, ela choraria, isso afetaria muito mais a raiva dele, ele ia lhe bater, com força, com toda a força que ele tinha, ela ia sangrar, ia cair, seria atirada na cama e estuprada. Era assim, dia a dia, todo dia, por semanas, meses, anos…

Ouviu o cinto ser puxado da porta…

Ouviu a porta do quarto se abrindo…

Ouviu a respiração dele…

Ele se aproximou tal qual um animal, circulou, queria olhar nos olhos dela.

Ela tremia dos pés a cabeça e respirava apresada.

Ele encostou seu rosto ao dela e ela estava apavorada, ele sorriu e seu rosto se contorceu numa careta de dor.

Ela já não pensava, fincara a faca em sua barriga repetidas vezes, não chorava, não falava, ele agarrou seu braço e deslizou por ele sem forças para outro movimento que não fosse cair. Ela esperou que ele chegasse ao chão e num golpe quase de misericórdia, cravou a faca em seu peito.

Olhou pra ele uma última vez, saiu do quarto escuro e sentou-se no sofá. Acendeu um cigarro, que era dele, tragou longamente. Era chegada a hora. Pegou o telefone, discou o número, deu seu endereço e pediu que a viatura não demorasse. Deitou-se no sofá.

 

Estava livre! Acabara sua agonia. Ela era forte. Sentia a liberdade entrar em seu corpo e adormeceu.

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Mariah Alcântara
Mariah, escritora, sonhadora e apaixonada pela vida. Escrevo desde os 15 anos, comecei com devoção por poesia e depois crônicas e contos (minha paixão). Faço parte de alguns projetos literários importantes, entre eles a Roda de escritores (que hoje tem outro perfil de trabalho) e Escritores da Era do Compartilhamento. Acredito que o sucesso vem com trabalho, e trabalho com amor gera sucesso.

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