“Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou…”

Tempo. Eis a palavrinha chave que nos acalma e, contraditoriamente, nos atormenta. Mas, como? Basta observar… As dores são muitas? As decepções angustiam e sufocam sem remédio? As pressões do dia a dia paralisam? Logo um amigo ou conhecido qualquer nos diz: “Calma, fulano! Vai passar! O tempo cura!”. Em contrapartida, experimente o sabor de uma noite feliz, de uma viagem emocionante recheada de belas paisagens e prazerosas companhias, prove o sabor de um beijo bom de quem ama e o abraço confortável de um familiar. Nesses momentos, o mesmo tempo demorado e, por vezes, interrupto falado anteriormente se torna instante. Ah… e como esses instantes se esgotam rapidamente. Quão felizes seríamos se, bem naquela hora, ganhássemos a eternidade.

 Diante dessa dicotômica palavra, o fato é o seguinte: o tempo não nos pertence! Não há relógios de pulso, de parede, ampulhetas que nos façam controlar a sua passagem demorada ou breve. Não há querer forte e persistente que nos permita retrocedê-lo e voltar ao segundo, mês, ano anteriores. Frustrante, não? Seria, se, nós não tivéssemos o presente chamado hoje. Ops! Ou seria o hoje em um presente… Whatever! Importa mesmo é que somos presenteados com o presente. E esse tal presente já é tão especial que o próprio nome já sugere oque encontraremos dentro do pacote: o recomeço. Este, pois, é uma arte. Olhe para trás. Isso! Só mais um pouquinho! Lembre-se do que fez há meia hora, há um dia. Recorde do momento mais marcante desta semana ou deste mês. Consegue visualizar? Que bom! Ele de fato existiu.
 Mas, deixe-me lhe contar uma verdade: já passou. Sim. Acabou. Fim. It finished. The end! É sério! Não temos mais o tempo que passou. O ontem não existe mais. E o amanhã nunca existirá. Sabe por quê? Todas as vezes que este finge chegar, torna-se HOJE. Puxa… então, ganho o presente e me torno um artista? Exato. A arte consiste em bordar os segundos que compõem o minuto, os minutos que modelam a hora e as horas que, por sua vez, formam o dia. Só sobre eles você tem o poder de agir ou deixar de agir. Por isso, o recomeço é tão importante.
 Há poucos artistas neste mundo. Algumas pessoas estão paradas observando ainda o instante fugaz do ontem. Outras, no entanto, esperam ansiosamente a realização do seu amanhã para desfrutá-lo. Duramente repito: eles não existem. É chegada a hora de produzir a arte do recomeço. De olhar para a sua janela todas as manhãs e despertar-se por causa da claridade do sol com a alegria de quem tem mais um dia para ser artista de sua própria existência. Só assim, implicitamente, esqueceremos do tempo e pararemos de tentar segurá-lo para os nossos fins.
 De fato, não temos mais o tempo que passou. Mas o poeta continua a canção: “…sempre em frente. Não temos tempo a perder.” Aliás… esse tal “tempo” nunca foi nosso. Então, apresse-se em não esperá-lo para que se torne quem você deve ser: o inventor do hoje.

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Rebeca Mendes
Quanto a mim, que leio, se crio e mantenho em existência um mundo injusto, não posso fazê-lo sem que me torne responsável por ele. E toda a arte do autor consiste em me obrigar a criar aquilo que ele desvenda - portanto, em me comprometer. Eis que nós dois arcamos com a responsabilidade pelo universo.( Jean Paul Sartre)

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