Nascida em berço esplêndido ao som dos brados retumbantes ecoantes da inserção do rádio à pátria brasileira, a moça sonhou acordada ao som do tico-teco de Carmem Miranda. Sentada na beira do criado, com o ouvido rente à caixinha de madeira com auto falantes estridentes, ela visualizou-se cantora, uma conquistadora de diversos tímpanos e de títulos pelas inúmeras ondas sonoras produzidas e compartilhadas em início pelo poder de seu gogó.

E a moça saiu para dançar pelos festivais de música. E encontrou o amor pela primeira vez. Herivelto, um moço bonito, de bigode afiado que cantava com seu parceiro no palco, ficou encantado pela lindeza daquela menina sorridente logo ali na frente. Ele conquistador, não perdeu tempo. Roubou-lhe o coração e o juízo. A moça direita, caída de paixão, soltou a refrão, e viu-se logo que ela tinha jeito para tal coisa. A praça lotada queria saber mais daquela mulher. Então, antes a dupla Preto no Branco, se fez então um Trio de Ouro. A moça viu o início da realidade dos seus sonhos, mas acabou por descobrir logo em frente que eles não eram tão bonitos e poéticos assim.

Ela vislumbrada por Herivelto, protagonizou o seu primeiro escândalo.Foi viver com o namorado, ainda oficialmente casado, desonrando a família e ganhando a fama de cantora que não tinha moral. O amor deles vingou e eles tiveram dois filhos. E foi quando a moça cresceu mais para os palcos e o sucesso no rádio atingiu, que feito pão foi amassada pelo ciúmes descontrolado de Herivelto. Apanhou , foi humilhada e traída, e enciumada brigava. E o amor foi ficando ralo, que até hoje ninguém entende o seu fim. Desquitada as forças, viu seu paraíso chegar ao fim. Os filhos criados em um internato foi o combustível para a sua depressão.

Talvez por isso, Dalva de Oliveira, rainha do rádio, o rouxinol das terras brasileiras tenha passado a vida inteira cantando com o útero, com disse Grande Otelo. A rainha da voz, se reergueu logo após indo realizar os seus shows na Argentina, onde conheceu o amor pela segunda vez e adotou uma filha. A mulher simples e humilde, que desejava ver os filhos, foi de novo oprimida pelo segundo marido. Ela voltou para o Brasil com sua filha, mas também perdeu a guarda desta, pelo mesmo motivo que perdeu a guarda dos filhos. Ela não era uma mulher vista pela sociedade machista com moral suficiente para criar uma filha.

Mas Dalva, afundada na depressão soube captar as melhores soluções e sensações de suas frustrações, fraquezas e com sensualidade na voz, cantou a sua vida nos palcos e aproximou-se ainda mais do seu público. Público que também não foi o mais querido dessa sociedade. Dalva foi reconhecida como rainha, madrinha e protetora e confidente dos homossexuais. E a menina sonhadora, teve várias outros namoros com músicos e atores. E também teve suas aparições em filmes, e se destacou em carreira internacional.

Dalva conheceu pela terceira vez o amor, quando conheceu Manuel, rapaz vinte anos mais jovem que ela. O casal que causou polêmica também causou maior revolta, após na saída de um show da cantora atropelaram e causaram a morte de quatro pessoas.Toda imprensa noticiou o fato e a carreira da moça que agora era vista como uma mulher que frequentava presídios, foi culminada aos dizeres de nada menos do que uma prostituta. Ela mesmo assim, enfrentou tudo e ajudou o seu amado.

A menina sonhadora, foi considerada pela revista Forbes como uma das maiores cantoras brasileiras. Ela gravou mais de 400 canções e teve coros em músicas de Carmen Miranda. E pós-morte teve a vida retratada para a teledramaturgia numa minissérie da rede Globo de televisão, interpretada pela atriz Adriana Esteves.

Mas o legado dessa mulher, como uma das pioneiras do rádio é sobretudo sobre as mulheres que gritaram as dores de ser as tais. Imprimindo em suas canções a vida errante e boêmia com um prisma social, mas imersas de um vestir transparente de lutar por seu direito de liberdade e respeito de serem como eram. Mulheres que falavam alto não somente os seus amores, mas também as suas traições, os socos em suas faces, as suas violências sofridas e os seus ciúmes, e as humilhações que lhe feriam o coração por serem desejadas por outros homens ao notar que elas brilhavam. Mulheres que se entregaram a jogatina, que bebiam e amavam sem a moral como a sua lei. Mulheres que falaram e cantaram alto. Mulheres que abraçavam gays, prostitutas e vários homens, e que sorriam alto. Mulheres que se despiram das roupas e dos pudores. Mulheres que voaram alto. Como aquele rouxinol, que apesar dos gritos, dos escândalos, a Dalva de Oliveira sussurrou ao ouvido de grande multidão, como ela mesma desejou desde o princípio.

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