Estrada de chão, pés descalços vão. Um vento suave soprava no vale. Das árvores se ouvia o gorgolejar de algum casal de pássaros cuidando de suas vidas. Maria da Esperança colhia flores enquanto seguia seu caminho. Flores que se igualavam a simplicidade e serenidade de seu singelo vestido.

Nuvens no céu prenunciavam a chegada de mais um pé d’água daqueles. O que fez Maria se apressar em sua caminhada. Foi quando deteve seu olhar no velho casebre no pé da colina.

Muitos temiam aquele local. Diziam ser assombrado por uma mulher brutalmente assassinada há alguns anos. Porém, Maria da Esperança não temia aquele lugar.

Mas, pela primeira vez enquanto por ali passava, ouviu um lamento. Pensou serem os pássaros, mas a voz tornou-se mais clara. “Escute-me”, dizia o clamor. Mesmo assustada, Maria decidiu adentrar no casebre.

O telhado feito de palha havia a muito desmoronado e uma parte do que um dia foi à parede de um quarto havia desmoronado sobre uma velha cama. Sentada no chão, próximo ao estrado do que um dia fora um leito que presenciará muita dor, um vulto chorava.

Um vulto que trouxe à Maria visões da dor de levar socos e sentir uma terrível baforada alcoólica enquanto sufocava entre mãos que um dia seguraram as sua de maneira tão hipócrita perante os outros.  Um vulto que fez aquela moça ouvir palavras de um sentimento de posse e egoísmo tão grandes que cortavam o ar.

A dor de se ver chicoteada,amedrontada, sacolejada e sempre silenciada. O sofrimento que acabou no instante em que decidiu fazer as malas e ir embora.

Por essa alma, Maria Esperança agora chora por saber que mesmo tendo forças para partir, aquela pobre alma não conseguiu realizar seu intento. Um ser sedento, ciumento e possessivo que impediu seu caminho e a jogou colina abaixo.  

Por um instante Maria pensou que aquele vulto tragicamente poderia ser ela ou mesmo tantas Marias que vivem uma condição semelhante e não possuíram, ainda, a coragem de fugir.

Maria concluiu que mesmo que a liberdade pareça amedrontadora, às vezes, fugir e buscar meios de enfrentar a impunidade, a possessão e a maldade são as únicas armas capazes de acabar com monstros tão irracionais e frios como aquele ser que tirara a vida daquela pobre mulher.

Em um instante, coragem e ardor surgiram em seu peito. Ela suspirou fundo, fez uma prece por aquela alma no casebre e decidiu sair pelo mundo. Ir embora, enquanto ainda era hora.Pois, aquele era apenas o começo de sua história.

Uma história de luta pelos direitos de tantas que padecem. Uma história onde ela não se permitiria jamais ser uma vítima, e sim uma vitoriosa. Uma história na qual tem a certeza de que apenas doará seu coração para aquele ou aquela que sabe que amar é libertar, jamais aprisionar ou açoitar.

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Ygor Phelipe
Um sonhador, um homem de mil faces, de milhares de heterônimos e com uma missão: dar vida aos sonhos por intermédio das palavras. Poeta, romancista e apaixonado por livros, histórias e pelas viagens que elas proporcionam.