Era uma tarde de sol escaldante em que nem mesmo na sombra conseguia-se um pouco de alívio. Dentro dos grandes arranha-céus da grande metrópole os condicionadores de ar trabalhavam loucamente em prol de uma parcela da sociedade. Porém, longe do frescor e da grandiloquência dos centros comerciais o pequeno garoto trabalhava vendendo chocolates no semáforo.

Com idade entre os 12 e 13 anos, pés cansados e a cabeça protegida apenas por um boné, ele andava esperançoso por entre os carros em busca de alguém que o ajudasse com o sustento de sua família.

– Um chocolate, senhor? Dizia ele entre um carro e outro, entre uma luz vermelha e uma verde. Correndo, suando, se esforçando.

Uns fechavam o vidro, e ele refletia o que havia de tão assustador em seu um metro e cinquenta de altura e olhos sinceros?

Outros apenas negavam e continuava ele em suas perambulações. Em alguns, ele via rostos de crianças como ele, com mochilas em seus colos e incompreensão em seus rostos, não sabiam eles que para poder estudar ele precisava passar a tarde trabalhando para poder comprar os lápis e canetas com os quais escrevia sua história.

Naquela tarde quente, quase todos os carros passavam com os vidros fechados por estarem com o ar condicionado ligado para tentar afastar o calor. Entretanto, foi surpreendido quando um dos automóveis que esperava pelo semáforo abrir ter o vidro abaixado e uma gentil voz lhe perguntar:

– Gostaria de comprar alguns chocolates para meus sobrinhos, mas preciso encontrar uma vaga para estacionar primeiro, poderia me esperar?

Olhando para o rosto daquela senhora, o garoto sorriu e balançou a cabeça em um gesto positivo. Após estacionar o carro, aquela mulher chamou-o até a entrada de um pequeno conjunto de lojas que ficava naquela rua. O pequeno garoto olhou para ela e perguntou:

– Quantos chocolates você quer, dona?

Ela piscou uma vez e perguntou em uma voz suave:

– Gostaria de tomar um sorvete?

Antes de deixá-lo responder partiu em direção a uma gelateria, onde pediu um sorvete com tudo o que tinha direito. Voltando, entregou o sorvete ao garoto e perguntou:

– Quantos chocolates há neste caixa?

Sem compreender e coçando a cabeça, respondeu:

-10, senhora.

Ela tirou algumas notas da carteira e entregou ao garoto, dizendo:

– Aqui está, acredito que pague por todos. Espero que agora possa ir para casa e descansar agora.

O garoto piscou algumas vezes, não acreditava no que estava acontecendo, por que aquela senhora estaria lhe ajudando? Como se lesse os pensamentos do garoto, ela disse:

– Saiba que faça isso porque há muitos anos atrás também precisei vender balas nas ruas para que pudéssemos ter o que comer em minha casa. Sentia-me feliz e determinada em ajudar minha família e vi o mesmo em seu olhar. Acredite, com esforço e determinação você poderá chegar longe, apenas continue batalhando. Espero encontrá-lo um dia novamente.

Entrando no carro, se despediu e partiu deixando o garoto segurando seu sorvete e com o coração acalentado.

Muitos anos se passaram desde que esse pequeno episódio urbano se passou. A grande metrópole continuou a crescer assim como o pequeno garoto. E com a mudança das estações a vida dele também mudou.

Era Dezembro, véspera de Natal. As pessoas preparavam-se para as festividades ao redor da cidade. Era uma noite fria e havia chovido bastante. Ele fazia sua última ronda quando uma paciente chamou sua atenção. Ele entregava pequenos cupcakes de chocolate que havia preparado no dia anterior para seus pacientes. Era um médico muito bondoso e atencioso. Como alguns pacientes haviam recebido alta, sobraram algumas de suas guloseimas.

Ele se aproximou daquela idosa. Aqueles olhos, ele já os havia visto antes. Seu coração se acalentou como naquele dia quente e inusitado, anos atrás. Ele se aproximou e notou os olhos delas nos seus: reconhecimento.

– Feliz e determinado sempre. Disse ele e entregou aquela senhora um de seus cupcakes. Um sorriso eternizou aquele momento.

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Ygor Phelipe
"Certa noite ele teve um sonho. No sonho, aves nadavam, peixes voavam e tudo parecia tão inverossímil que pela primeira vez viu sentido em algo. E assim, nasceu um sonhador, um homem de mil faces, de milhares de heterônimos e com uma paixão, dar vida aos sonhos por intermédio das palavras. Este é Ygor, pseudônimo Phelipe A., poeta, romancista, apaixonado em palavras e nas viagens que elas nos proporcionam. Por isto, pegue um sonho, abra-o e viva."