Há dias em que se é necessário aquietar as certezas da mente, colocar em ponto morto o coração, e consternar-se por dentro. Nestes silêncios inevitáveis em noites obscuras, ou madrugadas chuvosas, onde celulares e companhias não reais são relevantes ao desejo de tamanha solidão, é que damos espaço aos nossos questionamentos empíricos. “O que é que estou fazendo com a minha vida? ”, “Como seria se tudo tivesse sido diferente? ”, “Será que estou direcionando os meus esforços e tempo para as escolhas certas? ”, “Como administro o meu tempo, de forma que eu viva também mais momentos preciosos? ”.

Como se fosse fácil responder, nos deixamos cativar pelos mesmos dizeres de facilidade: “ Não podemos pensar nisso, já que é um peso desnecessário questionar a existência. A vida já era assim antes de chegarmos. ”

Foi nos ensinado a viver esperando. Esperando dias melhores. E parafraseando a música da banda Jota Quest, esperamos de nossos governantes as soluções para todas as crises das sociedades. Esperamos o amanhã, em que diremos tudo o que há para se dizer, sentiremos o tudo que devemos sentir, e viveremos, enfim, tudo o que há para se viver. E assim, tornamos o hoje improfícuo, e do amanhã um aprazível presente.

Dormimos com os nossos futuros traçados de vitória, e por vezes, acordamos presenteados com um luto. Perdemos outras vidas, e junto delas, outros tantos sonhos e scripts que nem chegaram ao clímax de seu enredo. Então, sentimos saudades de instantes felizes, desejamos momentos felizes, e perdemos novamente o leque de oportunidades da construção de acontecimentos bonitos.

Estamos perdendo o tempo, as pessoas e nos perdendo, buscando alcançar algo simbólico e impalpável. São nessas tentativas fracassadas de respostas do “além”, que constatamos que vivemos presos ao ideal de futuro construído. Futuro esse, não construído por uma identidade autônoma e liberta, mas pelas forças impostas pelo meio em que habitamos, e aceitas por todos nós com tamanha e estranha facilidade.

É necessário sair da conformidade dessas imposições. Ter coragem de pegar as “rédeas” da própria existência, construir as próprias vertentes e não só questionar, mas encarar as respostas não como fardos pesados, mas como alvos atingidos. Assim, trilharemos um caminho mais pleno de nós. Pleno de uma vida, não meramente levada pela maré, mas que remamos juntos.

Deixe Sua Opinião Ela é Importante Para Nós

SHARE
Previous articleA carta
Next articleSobre Maria
Natália Rezende
Um ser amor. Acredita em contos de fadas e em todos os mundos mágicos do universo das palavras. Das mais certas, mas também possuí incertezas. Um pouco louca. Escreve e sonha.