Crônicas

Uma carta para todos os que me jogaram no lixo

Foi mal, mas dessa vez vou ter que dizer não. A real é que eu cansei de ser descartável. Já percebeu que é tudo sempre na hora que você quer? Eu tô aqui de boa na minha e basta uma indireta ou duas pra eu dizer “tá bom, passa aqui daqui uma hora” ou “tal hora eu tô aí”.

Então as coisas rolam, tudo muito prazeroso obrigada, até o selinho na porta de casa. No outro dia é como se nada tivesse acontecido. Você volta pra casa satisfeito, mesmo tendo terminado a noite com a última opção disponível, já que os flertes jogados pra quem você realmente gosta não deram certo. Ou então pra sua vidinha perfeita, com a namorada que você conhece há um mês e já chama de ‘vida’.

Mas aí você vai ficar pensando “é diferente porque nós somos amigos”. Mas é como diz o meme “sei lá, o jeito como você se omite descaradamente na frente dos nossos amigos em comum é diferente”. É diferente o jeito carinhoso com que você trata as suas outras amigas, o fato de você chamar elas pra sair nem que seja pra tomar uma com os últimos centavos do mês ou pra andar e conversar trivialidades. O fato de desabafar com elas quando bate a bad, de puxar elas pra abraçar do nada, dar o carinho e atenção que sempre foram muito cansativos quando se tratavam de mim.

Esse tipo de coisa anda me cansando.
Às vezes me sinto o próprio quartinho da bagunça. Sabe aquela despensa onde as pessoas guardam o que sobra? Ou melhor dizendo, aquilo que ainda vai ser usado? Um ombro amigo pra escutar e dar conselhos. Uma menina pra conversar e fazer rir, quando a falta de um outro alguém ainda é grande e precisa ser preenchida de alguma forma.

Sabe, eu que procuro pra saber se tá tudo bem. Eu que chamo pra sair ou mando mensagem quando sinto falta. Eu que me preocupo quando a sua saúde não vai bem ou quando tá passando por alguma dificuldade. E no final das contas só sirvo pra uma noite ou duas. É do que sou lembrada. Em detrimento de todas as minhas outras virtudes fodas apagadas pelo monstro da baixa autoestima que me assombra e ao mesmo tempo me move a escrever.

É birra minha? É drama? Foda-se.
Minha intensidade não cabe nesses espacinhos superficiais demais que não absorvem uma gota das minhas tempestades em copo d’água.
Parei. De ressaca já basta a da bebedeira de ontem. Já que é solidão, que eu tenha uma ressaca de mim mesma afinal.

Ana Gabriela Regis

Escritora quando o chão some dos pés, jornalista por decisão.